quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

CAMPEÃ - UNIDOS DA TIJUCA


Finalmente, o Paulo Barros mereceu, afinal foram vários vices campeonatos quando deveria ser o primeirão. Adoro o trabalho desse fantástico carnavalesco. Este ano não acompanhei o desfile em protesto pelos anos nos quais o Paulo Barros foi injustiçado. Ano passado jurei que não iria acompanhar tamanha palhaçada. Acho que dei sorte para o meu querido carnavalesco, vai que fico alí, ansiosa, torcendo e nada....


Faço das palavras do meu querido HOMERO VENTURA as minhas, acrescentando apenas, se me permite o cronista, o sentir do carnavalesco, a delicadeza de sua comunicação de massa, a forma como enaltece a sensibilidade do povo, Paulo Barros não só nos brinda com sua arte, mas diz durante o desfile: nosso povo sabe, nosso povo sente, o carnaval é do povo.

"ALEGRIA

Se você colocar uma letra 'O' entre as letras 'G' e 'R' aí do título, e acrescentar 'HUMANA', você tem o nome de uma invenção do Século XXI. O inventor chama-se Paulo Barros, que tem uma profissão interessante. Cê já imaginou, o cara chegar num banco para preencher uma ficha, a mocinha pergunta: 'Nome?', ele diz 'Paulo Barros', depois 'Profissão?', e o cara, 'Carnavalesco'? Pois é, uma profissão muito restrita. Só uns poucos podem ostentar o título, creio que umas poucas centenas de pessoas no mundo, mas as que mais importam são as que dirigem o Carnaval do Rio de Janeiro, daí, o universo que interessa se restringe a pouco mais de uma dezena. São, na verdade, artistas, com um ano para criar sua arte e 82 minutos para mostrá-la na Avenida. Esse tal de Barros resolveu revolucionar o Carnaval, quando lançou, em 2004, a 'Alegoria Humana', com mais de 100 pessoas simulando um DNA, na Unidos da Tijuca. E ele inovava também nos outros carros alegóricos, e nas fantasias, perfeitamente amarradas ao enredo, mas não levou o título.

Se você trocar a letra 'R' de posição aí do título para antes da letra 'G', você tem o sentimento que eu estava desenvolvendo pelo Carnaval do Rio, na Sapucaí, pois vieram outros anos, outras maravilhas de alegorias, mesmo à frente de outra escola, e nada. O cara ganhava sempre os Estandartes de Ouro, d'O Globo, mas na hora do vamuvê, nada! Via que, seguidamente, aquele novo gênio era preterido pelos jurados que 'entendiam' de carnaval, em prol das escolas tradicionais, com seus enredos normais, suas fantasias comuns, suas alegorias sem graça, enquanto um cara super criativo ficava lá, tendo que se contentar em repetir o seu show no Desfile da Campeãs. Ainda assim, sempre acompanhei os últimos anos (não gosto é de bloco ou baile), fosse pela TV ou ao vivo, na esperança de vê-lo vencedor.

Se você trocar a letra 'G' de posição aí do título para o começo da palavra, e colocar o complemento 'DOS CARNAVALESCOS REVOLUCIONÁRIOS', é aonde o Paulo Barros está, desde 2004, na companhia de Joãozinho Trinta, e uns poucos outros.

Se você não trocar nenhuma letra de posição aí do título, você tem o sentimento que se apossou hoje, quarta-feira de cinzas de 2010, tenho certeza, de grande do povo carioca (ainda que torcedores de outras escolas), e porque não dizer, do povo brasileiro, já que a Sapucaí é o centro das atenções do país nesta época. Finalmente, Paulo Barros conseguiu descobrir como ganhar carnavais, retratando SEGREDOS. O enredo partiu da idéia de um estudante, através do Orkut, que o Paulo Barros, antenado com os tempos modernos, leu, e começou a burilar a cabeça sobre como poderia surpreender de novo. E conseguiu! Retratou o segredo dos ilusionistas na melhor Comissão de Frente que qualquer pessoa de bom senso já viu. Felizmente, os jurados entenderam isso, e deram 5 Dez Nota Dez, mas a diferença foi muito pouca: a Tijuca só livrou dois décimos no quesito, devia livrar um ponto inteiro. Eu fiquei até com vergonha, com pena das outras pobres escolas que vieram depois no primeiro dia, mesmo pela TV, ou no segundo dia, que vi lá na Avenida. A única que chegou perto, com algo mais que uma simples coreografia bonita, foi a Vila Isabel, com aqueles violões multi-uso. A categoria 'Alegorias e Adereços' lhe rendeu outros preciosos, mas parcos, três décimos, afinal os carros alegóricos beiravam a perfeição:
um Abre-Alas pegando fogo, retratando o incêndio da Biblioteca da Alexandria, que guardava muitos segredos;
os misteriosos Jardins Suspensos da Babilônia com 5.000 plantas verdadeiras;
um enorme pergaminho com segredos Mayas;
o segredo das identidades secretas dos super-heróis, retratado por uma rampa de acesso para Spidermen e descenso para Batmen de esqui;
a tão esperada Alegoria Humana, com o pavão negro, símbolo da escola;
e o resto....
Ironicamente, a Alegoria Humana deste ano campeão não foi tão brilhante como todas as outras com que nos brindou, em outros seis anos.
Felizmente, o resto estava mais que brilhante..
Pra terminar, uma declaração do Presidente da Unidos da Tijuca, de antes do desfile, quando perguntado sobre como se sentia quando Paulo Barros chegava com aquelas idéias malucas, ele disse: "Meu papel é conseguir o dinheiro para ele realizaá-las, sem contestação!" ou algo assim...

Sábia decisão!

Homero Curado da Alergia Vent
ura"

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

CARNAVAL 2010

Este ano não foi igual àquele que passou. Continuei trancada em casa, como em todos os carnavais, é muito calor humano para o meu temperamento solitário, no entanto não peguei a montanha de filmes que costumo alugar nessas datas populares. Preferi ler, ir ao cinema e ver televisão - Lost já iniciou a última temporada.... Além das novas temporadas de CSI, CSI New York, NCIS, Criminal Mind e outras. Adoro séries! Mas este é outro assunto, para breve, assim que os mistérios da melhor série desde Friend forem revelados, prometo uma matéria a respeito.


O Filme que assisti por duas vezes foi AVATAR, infelizmente ainda não me sinto apta a qualquer comentário que não caia no lugar comum: maravilhoso, adorei, fiquei em choque, enfim, essas bobagens que dizemos quando estamos sob intenso entusiasmo. Também ficará para depois.

Dei início a leitura de um livro, não vou dizer o título nem o autor, mas não consegui terminar, um horror. Mas como sou benevolente e sempre dou o maior número de chances que minha paciência permite, li até a metade do livro. Então desisti, nada aconteceria, a narrativa girava em torno de sí mesma, sempre repetindo e nada acrescentando. Há autores que acreditam que o número de páginas é um dado de valor na obra. Deixa prá lá!


Foi Gabeira que elevou o nível das leituras de carnaval. "Sinais de Vida no Planeta Minas" é uma obra simples, belíssima e profunda. Utiliza a história que chocou o meado dos anos 70 (lembro-me bem da notícia) da morte de Angela Diniz por Doca, e faz uma merecida homenagem às mulheres das Minas Gerais. Cruza as história de Beja e Chica da Silva com a da Tia Pantera. Nâo é uma comparação, como muitos leitores desavisados poderão entender, trata-se do amor que só nós, alienígenas do planeta Minas pode sentir, o amor pelas montanhas, pelo sotaque (às vezes paulista outras baianos) da tradição, das características únicas de uma sociedade secular alicerçada pela família.

Tenho orgulho de ter minhas raízes nas Gerais, apesar de ter nascido no Rio - um acidente provocado por meu pai rebelde.

Enfim, o calor me enlouqueceu, não dei sorte com os livros escolhidos, mas, mesmo assim, foi melhor que me enfiar na barbárie de centenas de almas suadas, bêbadas e barulhentas.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

Paulo Leminski e John Grisham

Certa vez, numa aula de Literatura, falando sobre o Romantismo e a obsessão dos românticos pela Morte, lembrei-me de algumas obras, como Saramago, Clarice e até Pessoa, onde a respeitável senhora era muitas vezes lembrada. No papo informal que caracterizava minhas aulas, compartilhei com aqueles adolescentes a minha visão pessoal da morte. Afirmei que é a minha melhor amiga, pois lembrar sua onipresença e inevitabilidade me dá a verdadeira dimensão da realidade. Com sua presença consigo selecionar melhor os fatos e os sentimentos que realmente merecem a minha atenção, pois diante de Seu toque definitivo todos os problemas, medos e inseguranças desaparecem. Os “meninos” – como eu gostava de chamá-los – ficaram fascinados e compreenderam, ou melhor, sentiram com a força de suas juventudes os românticos e suas obras. Principalmente os do segundo momento, os góticos.

Todo este preâmbulo para falar um pouquinho da minha última leitura.

Antes quero lembrar que há mais de dois anos leio o que “me der na telha”, não tenho mais compromisso com a literatura acadêmica, leio qualquer coisa que me der prazer.

Quero lembrar ainda que a minha penúltima leitura foi uma biografia. Não posso tecer grandes elogios, mas também não quero criticar, até porque levei a leitura até o fim. Talvez mais pelo biografado que pelo biógrafo. Paulo Leminski é realmente uma personagem fascinante. Espero que outras biografias sejam escritas, pois tenho certeza que um autor menos envolvido como Toninho Vaz possa nos trazer mais luzes sobre o pensar, o sentir e o fazer poético leminskiano.



Já a leitura de “A Câmara de Gás” de John Grisham, autor de Best-sellers como “O Dossiê Pelicano” e “O Cliente”, em princípio poderia ser confundida com mais um leve entretenimento – o que não deixa de ser verdade – mas, nas entrelinhas, no que não é dito, verifica-se uma literatura de reflexão interessante. O Homem e suas convicções diante da morte, a tal amiga de quem falei no preâmbulo dessas “mal traçadas linhas”, se transforma e se vê frente à total inutilidade das idéias impostas pelo sistema no qual está inserido. Diante da ilustre senhora, o que realmente é fundamental na natureza humana? O Amor? O outro deixa de ser um estranho?

Uma leitura que, de início seria apenas um “thriller” daqueles de nos fazer perder o sono, transforma-se numa obra de reflexão e pensar.

A obra é bem estruturada, suas 564 páginas encerram quatro semanas, tempo que o condenado no corredor da morte – USM (unidade de segurança máxima) no Mississipi – ainda possui para tentar reverter a condenação de morte pela câmera de gás. Nada é dito na literalidade, nada é dado de graça pelo autor, são duas obras no mesmo livro. A primeira, e mais evidente, é o Best-sellers, o thriller, a narrativa regurgitada, pronta, gerando o leitor passivo. A segunda, não escrita, é esotérica, camuflada nas entrelinhas, requer um leitor ativo, um interlocutor que desenvolva a narrativa com o autor.

É um bom livro. Nesses momentos fico muito frustrada por não saber ler em inglês. A leitura no original deve ser fantástica.

domingo, 10 de janeiro de 2010

MENTIRAS NO DIVÃ



"Mentiras no Divã", de Irvin D.Yalom, autor de "Quando Nietzsche chorou" de "A cura de Schopenhauer".

Na obra Yalom faz uma tentativa de reflexão na prática da terapia analítica. Expõe as fragilidades da terapia, critica a arrogância e desmistifica a figura do terapeuta.
Deixa para o leitor uma nova proposta de terapia, a relação de proximidade entre terapeuta e paciente.
Infelizmente continuo firme na minha rejeição a esse tipo de tratamento existencial, permaneço fiel ao meu terapeuta interior, à minha capacidade de auto análise e discernimento.
Com excessão da frágil qualidade da tradução que em alguns momentos prejudica o entendimento do texto, tornando necessaria nova leitura, a obra se coloca entre as melhores do autor. Só perde para o seu romance de estréia (ou de primeiro sucesso), "Quando Nietzsche chorou", para mim uma leitura inesquecível, não sei se pela incrível atração que sinto pelo filósofo protagonista ou se pela qualidade da obra - incluindo aí a sua tradução. Sinto-me anafalbeta por não ter condições de ler certas obras (exemplos: O Clube Dumas, A Menina que roubava livros, entre outros) no seu original.

domingo, 3 de janeiro de 2010

ANO NOVO - FERIADO DE 4 DIAS


Passei o final de semana prolongado, com minha filha viajando, assistindo os filmes que mais gosto. Foi difícil escolher, alguns seriam para recordar (já os havia visto algumas vezes) outros inéditos (para mim) apesar de conhecer os seus criadores e os diretores.
Com excessão de Wayne Wang, que se mostrou uma surpresa deliciosa. O filme não precisa de muitas palavras, a emoção transborda, a delicadeza e a simplicidade da narrativa enleva nossa alma cansada da vulgaridade e previsibilidade cinematográfica de nossos dias, permeada de tecnologia, monstros, e imagens. Tenho sede de palavras, tenho sede do sentir pleno e total dos artistas.



Carlos Saura, minha grande paixão. Dele escolhi dois filmes já assistidos algumas vezes, "Mamãe faz 100 anos" e "Tango", este último magnífico, que sempre me arrepia e me faz aplaudir sozinha, em casa.

"Mamãe faz 100 anos" é a combinação da vida familiar - que pode ser a de cada um de nós - e a mágia, sempre presente na obra de Saura.

TANGO dispensa comentários. A dança, o enredo, a personagem do diretor do espetáculo, a sensualidade. Tudo é único e saboroso.




Anatomia do Medo consegue nos levar para a viagem surreal atraves do tempo, para uma cultura totalmente diferente da nossa. O medo da Bomba H inunda a mente do patriarca de uma grande familia japonesa e faz com que decida mudar-se para o Brasil, segundo ele o lugar mais seguro do mundo no caso de uma guerra nuclear. Ninguém acredita nele.

Kurosawa, outro diretor com o dom de emocionar, no filme Anatomia do Medo nos dá a dimensão exata das consquências de sucumbir ao pai de todos as fraquezas, o MEDO.

Costa Gravas com o filme "Z", concretiza as imagens que vivencei na leitura do livro. Alimenta nossa revolta, a indignação que sentimos pelo alcance do poder totalitário, que não aceita e pune idéias, sonhos de paz e liberdade. O livro me deixou triste, o filme deu vida à essa tristeza. Jamais seremos livres, jamais haverá paz e harmonia entre os homens, suas vaidades, seus egos enormes e sua baixa auto estima não permitem e nunca deixarão que o discurso pacifista alcance o poder. Quando digo poder sinto a desarmonia da idéia com o discurso, quero dizer: a amplitude da paz apesar do Homem.

O filme "NOSSA MÚSICA" de Godard jogou a última pá de cal nas minhas esperanças. Imperdível, com Godard em cena, no seu próprio papel de escritor e cineasta, torna definitiva a falta de esperanças. O filme é divido em três partes, o INFERNO = GUERRAS que o mundo vivenciou durante toda a existência humana, o PURGATÓRIO = SARAJEVO pós guerra e o PARAÍSO = NATUREZA, mesmo assim patrulhada por marines estadunidenses. Não há como ter esperanças.

Apesar de tudo, ainda acredito no homem, na sua capacidade de recuperação, sua resistencia e sensibilidade.

O filme trata ainda da responsabilidade que a poesia possui em relação ao social.

Se tivesse que indicar um desses, seria NOSSA MÚSICA. Filme incrível e profundo, como toda a produção de Jean-Luc Godard

domingo, 13 de dezembro de 2009

TREM NOTURNO PARA LISBOA


Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos. Por isso aquele que despreza o ambiente não é o mesmo que dele se alegra ou padece. Na vasta colônia do nosso ser há gente de muitas espécies, pensando e sentindo diferentemente. (Fernando Pessoa, Livro do desassossego.)

"[...] Para podermos nos despedir de alguma coisa, pensou, enquanto o trem se punha em marcha, é preciso enfrentá-la de uma forma que gere um distanciamento interior. É preciso transformar essa naturalidade tácita, difusa, que toma conta da gente, em uma clareza que revela o significado de tudo aquilo." p.40



O ato de abraçar um livro após a leitura de suas últimas páginas pode ser traduzido pela necessidade, imperiosa, de manter vivas as palavras. A palavra sentida se perde em segundos, como a sensação da compreensão.

A leitura suave, feita com o sentir, não consegue manter-se no intelecto, lá o material disponível tem efeito contrário, a redução ao entendimento acadêmico.

Decidi, hoje, às 8h45: vou tomar o trem noturno para Lisboa. Expressão idiomática, usada para se referir a alguém que pretende mudar de vida, criada pelo sucesso da obra de Pascal Mercier, pseudônimo de Peter Bieri.

"[...] pensar é a segunda coisa mais bonita. A mais bonita é a poesia. Se houvesse o pensamento poético e a poesia pensante, seria o paraiso." p.352

"[...] a poesia supera tudo ... Anula todas as regras." p.371

e finalmente:

"[...] é preciso aceitar seu próprio kitsch para se libertar." p. 372
Não há outra forma, não há atalhos. Mesmo sabendo como é penoso e quase impossível, é preciso aceitá-lo. Mas para isso é também necessário identificá-lo, e então não perecer sob uma tontura torturante, devastadora do próprio ego.
"[...] Seriam necessárias uma coragem e uma força divinas para que se pudesse viver em perfeita sintonia com a verdade. É o que sabemos, também de nós mesmoss. Não há motivo para presunção." p.452

Não vou desvendar os mistérios da narrativa do nosso condutor nessa viagem às profundezas da alma do leitor. Até porque eu mesma, leitora mediana, mal consigo vislumbrar algumas pistas que logo se perderão na rotina de minha existencialidade medíocre.

O máximo que posso fazer é desejar uma BOA VIAGEM áqueles que se propuserem a enfrentar o desafio de pegar o TREM NOTURNO PARA LISBOA.

EM TEMPO:

"[...] POR QUE TU, ENTRE TODOS?... Ninguém é destinado para o outro. Não apenas porque não existe um destino, mas porque tampouco existe alguém que seja capaz de manipular as vidas a esse nível. Não: acima de tudo porque, entre as pessoas, não existe nenhuma obrigatoriedade que possa transceder as necessidades casuais e o poder dominador do hábito" p.450

terça-feira, 24 de novembro de 2009

ANIVERSÁRIO DE MAMÃE E O GUARDIÃO DA FLOR DE LÓTUS


Hoje seria o aniversário de 80 anos de mamãe, se ela tivesse esperado três dias antes de partir. Mamãe se foi; amiga, companheira, protetora, teimosa, elitista (mesmo sendo pobre). Adorava música clássica, fazia um empadão delicioso, nenhum de nós o esquecerá, nem a família, os amigos ou mesmo as eventuais visitas. Mamãe vaidosa, jamais ia à rua - mesmo que fosse só para atravessa-la e ir na padaria - sem maquiagem ou adequadamente vestida. Mantinha qualquer tipo de conversa, desde política, sobre a qual estava sempre bem informada, como sobre atividades culturais, mamãe amava as artes. Seu sonho era ser pianista. Mas nasceu pobre, filha de uma costureira com um entregador de pão, português. Mesmo assim chegou a estudar, por caridade, com uma professora freguesa da vovó. Acredito que foi aí que seu ouvido musical se aprimorou tanto. Não importava a peça ou a sinfonia, ela sempre sabia quem era o autor. Mamãe detestava vulgaridades, eu a apelidei de "reencarnação da Rainha Elizabeth I da Inglaterra", vivia com o nariz empinado. Mas era doce e dedicada, sempre preocupada com seus filhos. Perdeu o marido aos 58 anos e nunca mais pensou em nada, ficava em casa, curtia os netos e o bisneto.
Mamãe amada por todos, meus amigos que a conheceram, meus irmãos, os netos, as noras, os amigos dos netos, enfim, mamãe vai me fazer muita falta, deixa uma enorme lacuna na minha vida, um vazio sem precedentes até então, um vazio e uma dor que não conhecia. A família agora está orfã, se foi papai e agora mamãe partiu ao seu encontro.


A família nos anos em que não acreditávamos na morte.


Mamãe partiu às 14h35 do dia 21 de novembro. Cinco minutos antes de chegar ao Repouso Santa Teresa, onde estava sendo cuidada. Desde então meu coração bate mais rápido, minha vontade ficou pequena, meu olhar se entristeceu, minha vida parou, estagnou como se não houvesse mais nada a fazer aqui.

Aqueles que me conhecem um pouco sabem que toda a leitura de mundo que efetuo é desencadeada pela literatura. Estava lendo "O Guardião da Flor de Lótus", de Andrés Pascual, um escritor espanhol. Já estava terminando a leitura quando mamãe se despediu da vida. Dopada, com uma carga de 2mg de Rivotril de manhã e outra antes de dormir, não tive ânimo para ler. Só ontem resolvi terminar as últimas páginas do livro que até então estava me despertando tanto interesse. Não vou comentá-lo, transcrevo alguns trechos que marquei e deixo com meus poucos leitores as conclusões, ou melhor, as inferências.

"[...] - Quando alguém próximo morre, você deixa de ser a pessoa que era [...] A morte está muito mais próxima do que as estrelas, mas não queremos vê-la. No entanto acreditamos compreender a distância desses pontos de luz, mesmo sabendo que quando os fitamos eles já deixaram de existir." p.342

"[...] A perda de um ser querido é o que causa a modificação mais severa em nosso ser, que muda segundo a segundo com o resto do Cosmo. Mas não devemos nos esquecer de que quem falece renasce noutro lugar e noutra coisa, convertendo-se no fruto dos atos que ele mesmo e o resto da humanidade fomos consumando ao longo da vida. Por isso, você deve superar suas aflições e fazer com determinação o que as pessoas que ainda estão neste mundo esperam de você." p.343

"[...] No Ocidente, vocês carecem de pilares para sustentar relações de compromisso verdadeiras. São educados na realização a partir de individualidade, potencializando a competitividade e o êxito como grande meio de alcançar a felicidade. Sempre necessitam mais e, ao mesmo tempo, permanecem vazios por dentro. Por isso, quando algo se frustra, como nesse caso com a doença (e morte) de um ser querido, cai por terra aquilo que conseguiram ilusoriamente com sua busca egoísta." p.405

"[...] O amor e a entrega aos que nos rodeiam nos tornam livres, nos permitem prescindir de nossas atuaduras pessoais e superar nossas limitações. A nossa existência deixa de ser finita, já que permanece nas pessoas que amamos." p.406

Quero agradecer à minha filha amada, aos amigos e colegas que estiveram ao meu lado, agradeço os abraços, as mensagens de solidariedade, agradeço a presença no Francisco de Paula, agradeço as lembranças boas que guardam de Dona Therezinha.

Mãezinha, FELIZ ANIVERSÁRIO, seja lá onde estiver, com quem estiver, siga seu caminho de luz e deixe de se preocupar conosco, saberemos utilizar seu exemplo e a educação que nos deu. Beijos com saudades.

Sua filha

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

DE CUBA, COM CARINHO


Yoani Sánchez escreve um dos blogs mais visitados do mundo, Generación Y, com vários milhões de acessos mensais, mas quase não consegue ser lida em Cuba, onde mora com seu marido Reinaldo Escobar e seu filho adolescente Teo.
Yoani relata com humor azedo as diversas experiências que vivencia com sua família numa Cuba destruida, com seu sistema em colapso e prestes a desabar no quintal estadunidense com a morte do velho comandante.
Muitas das reclamações de Yoani são perfeitamente compreensíveis. No entanto vejo a ilusão bailando ao som da salsa em suas palavras. Para Yoani (ou melhor) para o seu marido, o governo do Batista não era tão ruim, pelo contrário, a situação que antecedeu a revolução de Castro era melhor e mais justa... para quem?
Em algumas passagens chego a invejar a cubana Yoani, que tem a quem culpar pela educação deficitária, pela corrupção, pela bandidagem, pela falta de liberdade, pelas carências na saúde, pela falta de emprego, pelo trabalho informal, tudo isso é culpa de Fidel e Raul Castro. Mas e aqui? A quem culpar pela violência, pela corrupção, pela educação de péssima qualidade, pela bandidagem, pela falta de liberdade em andar livremente pelas ruas, ir a um teatro ou cinema? De quem é a culpa?
Fantástica a ilusão de Yoani em acreditar que tudo será melhor após a abertura da politica da Ilha. Espero estar viva para saber o que fará, será candidata ao senado de Cuba? Irá ingressar na política? O que fará Yoani após a morte do velho guerrilheiro?
Nas insinuações de Escobar sobre o desaparecimento de Camilo e Che, na falta de informações do governo ao povo de Cuba, tem-se a nítida impressão partidária nas palavras do jornalista marido de Yoani. Postura claramente direitista, é contra tudo o que se refere à Revolução Cubana, parece que nada se aproveitou e tudo, mas tudo mesmo, é culpa dos Castros.
Não estou colocando "panos quentes" ou "tapando o sol com a peneira". Não posso negar o fracasso em que mergulhou a belíssima Ilha de Fidel. Não posso negar que não houve sensibilidade do velho comandante ao deixar passar a oportunidade de manter a Ilha com os cubanos quando assim foi possível. Não posso negar a teimosia do velho guerrilheiro em manter em mãos o poder. Fazer o que? Mas também não posso anular os feitos e a coragem dos homens que fizeram a Revolução. Não posso aceitar a afirmação de que o governo Batista era justo e melhor (pode até ser que no momento se possa comparar, mas não se pode fechar os olhos para todo o processo revolucionário).
Fiquei muito triste, com raiva e decepcionada. Tenho um profundo amor por Cuba e pelos cubanos. Tinha orgulho em assistir o povo Cubano vencendo a poderosa águia da destruição.
Não é exagero Escobar, ELES são realmente muito perigosos. Aqui no Brasil sentimos na carne o poder DELES, a repressão militar, apoiada e financiada pelos estados unidos, nos custou muito caro. Não se iludam, se cairem novamente nas mãos DELES, com toda a riqueza e potencial que vocês possuem (mão de obra barata, subsídios, belezas naturais e muitas outras) jamais recuperarão a identidade nacional. Serão, como foram outrora, o quintal da Águia.

sábado, 7 de novembro de 2009

O SEQUESTRO DE EDGARDO MORTARA


A obra de David Kertzer é um documento histórico preciso e importante, não só para os amantes da história, mas para o leitor sério que busca o conhecimento necessário para efetuar uma reflexão do seu tempo.

Kertzer nos apresenta um romance envolvente, a narrativa fluente e os fatos devidamente comprovados, com citações de documentos históricos, proporcionam a viagem no tempo da unificação da Itália de meados do século XIX.

Alguns acontecimentos desconhecidos nos fazem repensar afirmações atuais. Descobrimos que há deturpações importantes na história oficial: a estrela de Davi amarela que os judeus eram obrigados a usar nos campos nazistas, já era utilizada pela Igreja muito antes do Séc. XIX e a inquisição não terminou com a Idade Média, o Santo Ofício permaneceu atuante até o início do Século XX.

Entendo que “O Seqüestro de Edgardo Mortara” é obra que deverá integrar qualquer biblioteca comprometida com seu tempo, por ser um documento importante para aqueles que questionam e querem entender o presente.

Para descortinar a origem dos conflitos, das questões sociais e políticas do século XXI é necessário buscar na história da humanidade as respostas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Triologia MILLENNIUM - Stieg Larsson

TRIOLOGIA MILLENNIUM

Um dos maiores êxitos no gênero de mistério dos últimos anos é a triologia Millennium, escrito por Stieg Larsson, jornalista e ativista político muito respeitado na Suécia, que morreu subitamente em 2004. Seus livros não só alcançaram o topo das vendas nos países em que foram lançados (além da própria Suécia – onde uma em cada quatro pessoas leu pelo menos um exemplar da série –, a Alemanha, a Noruega, a Itália, a Dinamarca, a França, a Espanha, a Inglaterra e agora o Brasil), como receberam críticas entusiasmadas.
A obra é a abordagem de duas situações bem definidas: o jornalismo investigativo e o preconceito ainda existente contra a mulher. A mulher escolhida por Larsson é atípica: franzina, com inteligência acima da média, “expert” em informática, completamente tatuada, além de portadora de uma estranheza totalmente incompreensível, porém sedutora. Na Lisbeth Salander o autor conseguiu centralizar um imenso número de mulheres, várias personalidades femininas numa só personagem. A mulher camaleoa, poderosa e frágil (quando apaixonada).
O Jornalismo é quase divinizado na narrativa de Larsson – talvez por sua formação acadêmica – não há, em nenhum dos volumes qualquer crítica à seriedade do jornalismo na Suécia. As soluções para a corrupção, as injustiças sociais e outras patologias humanas, são atribuídas ao jornalismo, com isso lhe é cobrado o comprometimento com o social, com a justiça e o cidadão.
Larsson nos oferece uma leitura lúdica, mas não inócua. Um divertimento instigante numa linguagem fácil que não deixa margem de erro, não há nada a buscar nas entrelinhas. Sua narrativa é direta e objetiva, como num filme policial de qualidade duvidosa. O mérito está na tecedura, na escolha do tema e na sua exploração. Pela primeira vez leio uma obra na qual a mulher é retratada com realidade (apesar do aparente exagero). Todas as mulheres vivem em Salander; de todas as classes sociais, de todas as crenças, de todas as opções sexuais, as mulheres exploradas e as exploradoras.

São três volumes: Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A Rainha do Castelo de Ar. O que mais gostei foi o último, onde o autor se esmera na técnica narrativa e consegue prender nosso interesse em cada página das mais de 600 que o livro possui.
Indico a leitura sem medo de errar, tenho certeza que todos gostarão de viver as aventuras (e desventuras) desses dois personagens apaixonantes.

domingo, 18 de outubro de 2009

ARCA RUSSA - Aleksandr Sokúrov


A simples realização de “Arca Russa” (Russkij Kovcheg, Rússia/Alemanha, 2002) já seria suficiente para inscrever o nome do cineasta Alekxandr Sokurov em uma nova página da história do cinema. A rigor, o longa-metragem nem precisava ser bom para conseguir marcar esse tento. É simples: “Arca Russa” consegue a proeza tecnológica de ter um único plano-seqüência. Ou seja, o filme inteiro numa tomada única. São 97 minutos gravados em um só fôlego, sem cortes. Uma proeza tecnológica fenomenal. Quanto a isso, não há discussão. Mas o projeto leva, sim, a uma série de reflexões acerca da natureza da arte cinematográfica.
Muita gente acredita que “Arca Russa” oferece uma pista inequívoca daquilo que poderá ser o futuro do cinema. Como grandes clássicos do passado (”Cidadão Kane”), o trabalho de Sokurov exigiu que um equipamento especial fosse adaptado para poder realizar o projeto ambicioso. O cineasta e o diretor de fotografia, Tilman Büttner, tiveram que inventar uma maneira de captar as imagens de forma 100% digital. Essa tecnologia já existia, mas não a possibilidade de gravar 97 minutos de filme sem cortes. O filme digital, em tese, teria que ter cortes. Por isso, a câmera utilizada no longa precisou ser ligada a um disco rígido especial, que armazenava os dados digitais à medida em que as cenas iam sendo captadas.

A suntuosidade do projeto também exigiu uma coreografia monumental. Não é admirar que Sokurov tenha sonhado com o projeto durante 15 anos, e que nada menos do que sete meses tenham sido gastos apenas para montar a coreografia do trabalho, que foi gravado em um único dia: 23 de dezembro de 2001. Por sinal, o filme tinha mesmo que sair naquele dia, querendo ou não, pois o Hermitage só permitiu o projeto porque não precisaria fechar a casa por mais tempo.
Um breve resumo do enredo, acrescido de alguns números, podem dar uma idéia do tamanho hercúleo da tarefa. O longa narra um passeio de dois personagens por 35 salas, pátios, corredores e escadas do museu Hermitage, em São Petersburgo (Rússia). Não é uma tour comum; nela, 3 mil figurantes, todos devidamente caracterizados com os figurinos pomposos, característicos da monarquia russa, encenam grandes e pequenos momentos de 300 anos da história do país, entre os séculos XVII e XX. Os espectadores ficam conhecendo personagens históricos como os czares Pedro o Grande, Catarina a Grande, Catarina II e Nicolau.
Do ponto de vista técnico, portanto, o projeto é capaz de fazer uma campanha logística como a responsável pela trilogia “O Senhor dos Anéis” parecer festa de aniversário de criança. Além disso, a fotografia, a cenografia e os figurinos se casam maravilhosamente, gerando um filme rico de conteúdo e com imagens de beleza plástica inconfundível. Sokurov logra sucesso em um dos objetivos declarados de “Arca Russa”: retratar o museu Hermitage como uma espécie de repositório orgânico, quase vivo, da cultura de um povo. O filme atinge admiravelmente esse propósito, inclusive quando realiza a crítica dessa mesma cultura, através do enigmático personagem do Europeu (Sergei Dreiden). Ele não economiza ironia, ao comentar sobre a vontade dos monarcas russos em copiar os franceses.

Quando se deixa de lado a parte técnica do filme, porém, sobram questões que merecem reflexão. Há uma pergunta que parece fundamental: por que “Arca Russa” precisou ser filmado em uma tomada só, sem cortes? Qual a razão para a utilização dessa técnica específica? Será que o trabalho ficaria pior se fosse filmado de modo tradicional? Essa pergunta permanece sem resposta. Projetos que tentaram experiências parecidas (“Festim Diabólico”, de Hitchcock, e o recente “Timecode”, de Mike Figgis) tinham justificativas mais sólidas. A película de Hitchcock necessitava de um encapsulamento rigoroso dos limites de tempo e espaço, para gerar a tensão necessária no espectador. Já o trabalho de Figgis tem uma semelhança muito maior com o longa de Sokurov, pois inclusive foi filmado com tecnologia digital de captação de imagens. Mas “Timecode” recorta um mesmo período do dia e o narra em quatro janelas simultâneas que se abrem na tela do cinema. Portanto, a continuidade das imagens também é fundamental.
Em “Arca Russa”, nenhuma resposta a essa pergunta satisfaz inteiramente. Parece óbvio, entretanto, que Sokurov tenta travar um diálogo com uma geração anterior; particularmente, com Sergei Eisenstein. O mestre formalista foi o homem que elevou o conceito de montagem ao nível de arte. Através de obras como “O Encouraçado Potemkim” (1925), Eisenstein mostrou que o cinema criava significado através da justaposição de planos – ou seja, através do corte. Em outras palavras, que o significado que emanava do choque entre duas tomadas isoladas não estava, sozinho, contido em nenhuma delas. A cena de uma criança chorando não significa nada além disso. Um plano de um prato vazio também não. Juntas, essas duas imagens geram uma imagem mental na platéia: fome. Esse conceito foi, depois, ampliado e refinado pelos gigantes na arte do filme, como Stanley Kubrick. Todo o cinema contemporâneo presta tributo a Eisenstein.
Talvez “Arca Russa” tenha a pretensão de oferecer um caminho alternativo ao criador de “Potemkim”, porque, de fato, o trabalho de Sokurov consegue ultrapassar esse problema. Mesmo sem cortes, o conterrâneo de Eisenstein também consegue construir imagens mentais que não estão estritamente contidas nas cenas que vemos na tela. Os 30 minutos finais do longa são o melhor exemplo disso – e também o melhor momento do filme. Vemos a última ceia da família Romanov (evocando a Santa Ceia). Depois, o último baile dos nobres russos, antes da revolução de 1917. A saída das centenas de nobres do prédio principal, em silêncio, imprime uma sensação de nostalgia e desolação que correspondem, em última análise, à imagem mental que a montagem de Eisenstein sempre se preocupou em evocar. O fato de o Europeu avisar ao colega-câmera que não pretende deixar o lugar apenas reforça essa nostalgia. Trata-se do final de uma era, o último suspiro de um período. A calma antes da tempestade.

Nada disso teria sido alcançado sem a ajuda, repito, de uma coreografia rigorosa e nunca menos do que espetacular. Nos 97 minutos, a câmera percorre um caminho literalmente impossível, subindo escadas em espiral, passando por sobre o fosso da orquestra (que executa uma ópera para Catarina, a Grande), executando giros de 360 graus e realizando um verdadeiro balé no trecho final, durante o baile de gala dos Romanov, quando chega quase a levantar vôo. Essas proezas técnicas imprimem um ritmo um pouco mais ágil à narrativa, que possui (como qualquer outro filme que usa a noção de tempo real) uma progressão naturalmente lenta. A câmera praticamente não pára, mas também não acelera a ação. Consegue, assim, um meio termo interessante entre a narração e a reflexão. Por tudo isso, “Arca Russa” é um grande programa para os amantes de um cinema que procura algo novo, ao invés de apenas repetir fórmulas consagradas.

Arca Russa (Russkij Kovcheg, Rússia/Alemanha, 2002)
Direção: Alekxandr Sokurov
Elenco: Sergey Dreiden, Maria Kuznetsova, Mikhail Piotrovsky, David Giorgobiani
Duração: 97 minutos

FONTE: http://www.cinereporter.com.br/dvd/arca-russa/

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

IDIOCRACY

Idiocracy - (2006)
Idiocracy
por André Silva Navarro

Idiocracy começa terrivelmente mal: insinuando que a espécie humana está ficando cada vez mais estúpida por motivos genéticos - mais especificamente, porque as pessoas inteligentes não estão tendo filhos e as burras estão, como se a inteligência de um pessoa dependesse inteiramente dos pais. E isso é uma gigantesca estupidez, o que é irônico considerando que estupidez é justamente o que o diretor e roteirista Mike Judge condena neste filme. Aliás, de acordo com a introdução do filme, só existem pessoas burras e inteligentes, sem nada no meio. Pior: pessoas burras ou de inteligência normal aparentemente são incapazes de feitos grandiosos, sendo fadadas a levar suas vidas de forma quieta e inútil. E como se isso tudo não fosse suficiente, Judge ainda parece acreditar que o fator determinante do "valor" de um indivíduo é apenas seu QI.

Felizmente, o filme deixa essa postura retardada para trás a partir do momento que o protagonista - o insignificante Joe Bauers (Luke Wilson) - e uma prostituta chamada Rita (Maya Rudolph) são congelados numa experiência militar e, por acidente, só acordam quinhentos anos depois e dão de cara com uma sociedade incrivelmente imbecil, populada por seres humanos facilmente manipulados por comerciais e cujo filme favorito chama-se "Bunda" e consiste de uma bunda sendo filmada peidando por noventa minutos. Incapaz de achar soluções para o lixo e para a alimentação, esta sociedade do futuro acaba sendo surpreendentemente verossímil, já que é possível traçar vários paralelos com os dias de hoje: os comerciais manipulativos, os filmes preguiçosos que fazem sucesso, o crescente uso da tecnologia para aumentar o conforto dos humanos - o que me fez lembrar do fabuloso Wall-E, onde as pessoas do futuro usam poltronas flutuantes para se deslocar. E nesta sociedade medíocre, os medianos Joe e Rita são considerados gênios - algo que os coloca em péssimas situações. Porém, o erro de Judge (e do co-roteirista Etan Cohen) é achar que a humanidade chegaria a esse ponto devido à reprodução de pessoas burras sendo maior que a de pessoas inteligentes (até dói escrever isso). Não, se a humanidade chegar a tal decadência, será por nossa própria culpa - nos deixando manipular pelos confortos de hoje em dia e ficando cada vez com mais preguiça de pensar.

Se ignorarmos esta ridícula postura de Idiocracy, o filme se transforma numa comédia surpreendentemente eficaz e que, mesmo equivocada, se torna socialmente relevante ao tocar em certos aspectos. Repare, por exemplo, como a polícia do futuro cerca um carro supostamente com gente dentro e o metralha impiedosamente (até uma bazuca é usada) - numa referência clara à brutalidade policial de hoje (o que me fez lembrar tristemente do garoto de três anos, João Roberto, morto por dois PMs). Ou como uma bebida chamada Brawndo substitui completamente a água, que passa a ser usada apenas em vasos sanitários.

O filme também acerta ao extrair humor da burrice da sociedade do futuro - com destaque para a brilhante cena em que Joe tenta explicar aos ministros porque água é melhor do que Brawndo para fazer plantas crescerem ("Mas Brawndo tem eletrolitos!"). Apesar de ter uma filosofia distorcida no que diz respeito à espécie humana, Mike Judge definitivamente tem talento para humor, e não pude deixar de rir em diversas cenas - algo que não faço com facilidade. O roteiro dele e de Etan Cohen consegue criar novas maneiras de complicar a vida de seus protagonistas, e jamais transforma Joe ou Rita em "gênios" de repente - eles permanecem consistentes do início ao fim, sendo apenas o cenário em volta deles que muda.

Na direção, Judge também faz um bom trabalho, escolhendo ângulos e movimentos de câmera que realçam a comédia. O filme também é muito beneficiado pelo seu ótimo elenco - começando com Luke Wilson, que compõe o protagonista mais mediano que você possa imaginar. Com bom timing cômico, ele carrega o filme facilmente sem desperdiçar nenhuma gag. Maya Rudolph está razoável, sem brilhar mas sem prejudicar. Dax Shepard está hilário como o retardado Frito e Terry Crews, impecável como o presidente Camacho (seus discursos são impagáveis). Não há um único membro do elenco que não convença como um completo imbecil.

Idiocracy é realmente engraçado, só é pena que seja tão equivocado a respeito do que pode levar a humanidade à ruína - não é QI ou genética, somos nós. Porque se fosse impossível fazer as pessoas mudarem de idéia só porque são burras ou inteligentes ou que quer que seja, nós já teríamos sido extintos há muito tempo.


http://www.cinemaemcena.com.br/Critica_Detalhe.aspx?id_critica=7221&id_tipo_critica=1

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

HOUSE e a Filosofia - Todo Mundo Mente

Para quem acompanha a série premiada da Universal, gosta e conhece um pouco de fisolofia, é uma leitura excelente.

RECOMENDO.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Semana Especial

Estive fora do ar por alguns dias, problemas com a coluna decorrentes da minha negligência na relação com meu corpo. Como todos os fatos de nossas vidas possuem seu lado positivo, o meu foi a possibilidade de dedicar total atenção às minhas leituras.

Iniciei com a obra de Salman Bushdie – Os Versos Satânicos.
Preciso fazer um parênteses para explicar como esse livro veio dar à minha estante.
Em nenhum momento a obra esteve na minha lista de espera para leitura. No entanto, minha mania de vasculhar sebos me levou a adquirir a tão comentada e polêmica obra, que provocou a ira do Jihad Islâmico.
Iniciei a leitura. Vislumbrei a alegoria utilizada pelo autor, acreditei que seria um desses livros inesquecíveis e repletos de ciladas intelectuais. Mas uma barreira intransponível se colocou diante de minha curiosidade, não tenho qualquer conhecimento, por menor que seja, da cultura islâmica, mulçumana. Alguns trechos se tornaram incompreensíveis e fui obrigada a abandonar a leitura nas 110 de suas 511 páginas. Na verdade pretendo retomar essa leitura, após acessar informações que possibilitem meu diálogo com o autor.

De um extremo a outro, escolhi o livro de Luciano Trigo, Vampiro. Gostei muito, mas tenho ressalvas que logo serão esclarecidas após algumas considerações e transcrições de seu conteúdo.
A narrativa é efetuada pelo protagonista, jornalista cujo nome não é revelado, suas paixões; xadrez e jazz entre outras. Numa narrativa aparentemente caótica e gótica, o leitor compartilha com o personagem narrador da insegurança vivenciada em nossos dias, no Rio de Janeiro, zona sul, a solidão e o individualismo.

Durante a leitura compartilhamos da desesperança do personagem:

“[...] Eu tenho uma teoria: o ser humano não foi geneticamente programado para ser feliz. Comer, dormir, trepar, envelhecer, morrer – estes são os autênticos objetivos de nossa espécie. Em algum momento, porém, os homens encafifaram que tinham que ser felizes. A busca da felicidade é um equívoco, e é sobre esse equívoco que se constroem todas as relações sociais.[...]” e assim vai, todas as mulheres são vagabundas, nada é realmente importante, até que, no final do livro o personagem trava uma conversa com o autor. (Muito legal esse artifício criando um contra ponto no diálogo com o leitor). Nesse diálogo a narrativa, que até então apresentava uma essência existencialista, fica “careta”. Toda a magia da existência do vampiro que o narrador acreditava ser, sua relação com o lado negro que todos nós possuímos, seus temores, é anulado, evaporando-se no discurso “lugar comum” do autor:

“[...] Jovens desorientados, angustiados, donos de uma liberdade inútil, da qual não sabem tirar proveito. Já não se submetem aos valores antiquados de seus pais, mas não sabem que rumo tomar, carecem de referenciais, exemplos, metas.[...]” Pena! Não gostei do desfecho, considerei a análise do autor simplista, fico com os pensamentos perturbados do personagem narrador, são mais literários.

Mas não me arrependo do tempo gasto, o livro é incrível, prende a atenção, bem escrito, uma verdadeira obra de arte. Se concordo ou não.... importância não há, sou apenas uma leitora.


Passsei então à leitura de Anjos e Demônios de Dan Brown. Já havia lido dois livros do autor, O Código da Vinci e Fortaleza Digital. Devo confessar que o estilo Best Seeler já está me cansando. Mas também preciso admitir que a leitura de Anjos e Demônios é bem mais interessante que os dois anteriores. O fantástico está presente em todos os momentos, me fez lembrar os primeiros filmes do Agente 007, quando tudo era possível – ou mais recente – o último Duro de Matar. É divertido, mas é só.
Anjos e Demônios é uma obra em que tudo é permitido, o filme deve ser intenso, movimentado como as melhores películas de ação de Hollyhood.