segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A CIDADE DO SOL - Khaled Hosseini

Hosseini se supera nessa obra delicada, pungente e envolvente. Tive o prazer de ler “O caçador de pipas”, que considero um dos melhores livros que li em 2008, só perdendo para a “Menina que roubava livros” – no gênero – mas “A cidade do sol” é superior em muitos níveis literários. É um livro bem construído, claro, quase um poema. O lirismo da narrativa é alicerçado por um poder descritivo próprio do autor, pela coesão perfeita, sem deslizes, pela simplicidade linear dos fatos, pelo realismo ao mesmo tempo cruel e belo.

Hosseini nos proporciona uma leitura apaixonante, desperta os mais diversos sentimentos e emoções no leitor.

Hosseini, um afegão, transmite com exatidão o sentir feminino, seus sonhos, suas frustrações e, principalmente, a submissão e aceitação da mulher afegã.

“A cidade do sol” é uma obra que marcará para sempre minha memória, é dessas leituras que permeiam nossos dias, nossa vida, nossas experiências. Talvez por ser mulher, ocidental e livre, Hosseini me atingiu tanto, dispertou em mim a cautela na avaliação do Ser humano, nas leituras do mundo em que vivo. É uma obra não só marcante, mas transformadora, e como tal é mais que um Best-seller, é uma obra de arte.


Quando cria as personagens Mariam e Laila, Hosseini atinge todas as mulheres, tanto do mundo oriental quanto do ocidental. Apesar da nacionalidade, e consideradas as devidas proporções, somos todas como Mariam e Laila. Magistral a forma como o autor aproxima duas mulheres tão diferentes: na origem, na educação, na história de vida, nos sonhos, na personalidade. Quando suas desgraças têm origem no casamento com um homem violento e preconceituoso, suas histórias se aproximam e se mesclam, tornando-se a mesma história.

Por falar em história, Hosseine é um mestre na arte de contá-las. Sua narrativa simples é primorosa, e apesar de tratar de uma cultura totalmente estranha para nós, ocidentais, consegue nos envolver e nos tornar parte integrante daquela realidade longínqua, que só conhecemos pela televisão e pelos noticiários.

Leitura obrigatória. Não deixem de viver essa experiência fascinante e envolvente proporcionada pela obra de Khaled Hosseini, “A cidade do Sol”.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

CLARICE LISPECTOR JORNALISTA - Aparecida Nunes

Para quem ama Clarice e gosta de desvendar os mistérios da literatura. Para os que encontram no “ler” o néctar da vida, a leitura de “Clarice Lispector jornalista – páginas femininas e outras páginas” é uma grata surpresa, prazerosa e repleta de momentos fascinantes.


Ganhei o livro no meu aniversário, num fugaz encontro com a autora, no Bar Getúlio do Catete. Se é que se pode dizer “fugaz” uma conversa com a Cida. Sua sensibilidade e saber acadêmico dão o sabor que torna nossos encontros inesquecíveis. A leitura tardia se deve à minha resistência às leituras acadêmicas. Talvez o medo do contato com os conteúdos que mais amo ou mesmo fragilidade diante daquela Clarice que marcou minha carreira como professora de literatura, abruptamente interrompida por tecnocratas da educação. No entanto o que encontro é uma narrativa fluída, gostosa, sem academicismos maçantes, sem o tom professoral que marca as obras teóricas. Apesar de originária da pesquisa séria e aprofundada da autora, a leitura é lúdica, trazendo como bônus ao aprofundamento na carreira literária de Clarice, a leitura descompromissada de um livro de altíssima qualidade.
Sob pseudônimos como Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares (vedete da década de 60) Clarice publica crônicas, atuando como jornalista em algumas revistas e jornais da época. A autora efetua uma análise dessa face clariciana, cruza momentos jornalísticos e literários com o panorama da época, seus personagens e fatos relacionados à vida e obra de Clarice Lispector.

Ao terminar a leitura fico pesarosa por ter levado tantos meses para folhear as páginas dessa obra imprescindível na biblioteca de uma apaixonada por literatura e, principalmente, por Clarice Lispector.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O FÍSICO de Noah Gordon

Terminei hoje minha viagem pelas páginas da epopéia de um médico medieval, Rob Cole. A sensação de estar de volta - no tempo e no espaço - foi agradável e frustrante. Agradável por saber a salvo em meu quarto, em uma época menos violenta e mais esclarecida. Frustrante porque, apesar de alguns avanços, a natureza humana não evoluiu na mesma proporção da tecnologia.

Em "O FÍSICO", acompanhamos a trejetória de Rob, um menino pobre que persegue sua vocação para a cura. Nascido com o "dom" de efetuar a leitura da energia das pessoas, entende o recado divino e não recua diante de nenhum dos obstáculos que se apresentam à sua caminhada rumo ao conhecimento, que está no distante Oriente.

Uma leitura excelente, cheia de surpresas e emoções, a obra de Gordon é, sem qualquer dúvida, uma viagem emocionante pela Idade Média. As dificuldades, a ignorância do homem diante do radicalismo religioso, tanto no Oriente como no Ocidente. O mergulho nas páginas do livro provoca a reflexão para os fatos que hoje vivenciamos no Oriente - a guerra entre mulçumanos e israelitas - a intolerância religiosa e a luta por espaço naquela região de deserto, lutas milenares que se perpetuam diante de nossos olhos perplexos.

Outra inferência importante é a de que as mudanças são lentas e quase imperceptíveis. Rob quer - ao chegar em Londres - colocar seus conhecimentos a serviço da população. Encontra a resistência e a ignorância que colocam em risco a sua vida. Com ele pensamos: "Então por que tanto sofrimento? Por que? Se os seus conhecimentos não são uteis para os seus irmãos." A resposta chega nas últimas páginas do livro. Então entendemos. E sorrimos, quando nas últimas linhas, a compreensão da vontade divina se faz e percebemos como damos voltas quando a resposta está diante de nossos olhos. Descobrimos que a aproximação cega e que temos maior facilidade para olhar a distancia.

Aguardem, pois pretendo ler as outras obras desse autor dinâmico e sério na sua criação literária.

por Anália Maia

Noah Gordon é bastante conhecido por livros como O Rabino, O Diamante de Jerusalém, O Físico e Xamã. Misturando temática judaica com ciência e mística medieval, o autor tem seus romances presentes nas listas dos mais vendidos em cada país onde é lançado. Filho de judeus russos, ex-estudante de medicina e jornalista graduado fez da ficção seu laboratório de experimentações criativas
Noah Gordon é um escritor americano. Nasceu em 11 de Novembro de 1926 em Worcester, no estado de Massachusetts. Seus romances falam sobre história da medicina, ética médica e mais recentemente começou a focar em temas relacionados à Inquisição e a herança cultural judia.
Serviu no exército americano durante a Segunda Guerra Mundial. Após o fim da guerra entrou no curso pré-médico por pressão de seus pais, o qual cursou durante apenas um semestre, pedindo transferência para o curso de jornalismo. Se formou como jornalista em 1950. Atuou como editor de algumas revistas científicas e publicou o seu primeiro romance (Rabii) em 1965.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Across the Universe

Nas letras das músicas dos Beatles há uma história para a qual nunca se prestou a devida atenção. A diretora Julie Taymor resolveu narrar, com imagens incríveis, a saga do amor de June e Lucy. Para tanto utilizou o panorama político e social da época, final dos anos 60.

O filme conta a experiência de um jovem inglês, Jude, que vai aos Estados Unidos e se apaixona por uma garota adolescente, Lucy. Quando Max, o irmão da garota, é convocado para a guerra do Vietnã, Lucy se torna ativista da paz. O filme faz uma combinação de live action (atores de carne e osso), pinturas e animações em terceira dimensão. A trilha sonora é composta por canções dos Beatles - assim como muitos dos personagens têm nomes usados nas músicas do grupo britânico.
O destaque fica para os arranjos musicais e a fotografia. O visual psicodélico é utilizado com maestria por Bruno Delbonnel, alguns momentos são de pura magia ao som das canções mais famosas do mundo.
Não importa se você foi testemunha ocular ou apenas conhece a banda de ouvir falar ou de ouvir no rádio. Não importa se você é romântico, socialista, a favor da igualdade social ou pacifista. O filme é imperdível.
Eis algumas fotos fantásticas:
Belíssima cena, de plasticidade e sensibilidade incontestáveis.








O grupo vai se formando naturalmente, mas possue a harmonia própria dos iguais no sentir do seu tempo.

O encontro histórico da banda no telhado de um prédio em Londres é reproduzido pela diretora no epílogo do filme. Impossível deixar de sentir a emoção que nos invade. Até mesmo para alguém que não tenha sido uma fã fervorosa, como eu, as lágrimas chegam impunes e fazem arder os olhos sexagenários.
O Psicodelismo próprio da época - uma viagem de LSD ou apenas a linguagem de uma época? - é utilizado amplamente, e da poltrona do cinema do século XXI a imaginação decola atrevida pelas águas da memória.

Impossível evitar o sorriso triunfante de quem viveu ao som dos Beatles, dos The Doors ou mesmo da Tropicália brasileira.

Não percam o filme mais incrível que já pude assistir. Criativo, sensível, comprometido com um tempo de revolução, contestação e mudanças. Em todos os aspectos, para todos os gostos, esse musical romantico, aparentemente inofensivo, é um espetáculo para se guardar do lado esquerdo do peito para todo o sempre.

domingo, 11 de janeiro de 2009

A VIAGEM DO ELEFANTE

"Não é todo o dia que aparece um elefante nas nossas vidas." Assim tem início o resumo de orelha da obra de José Saramago. Como o texto não está assinado, concluimos que se trata de autoria da Editora, Companhia das Letras, responsável pelas publicações desse escritor maravilhoso.

Não posso afirmar que seja o melhor livro de Saramago, nem o pior (façanha que ainda não consegui levar a termo), mas é uma leitura agradável, repleta de humor e aventura, do elefante, o Salomão ou Solimão - dependendo do país em que está vivendo.

Pessoalmente tenho elefantes em minha vida há muito tempo, dos brancos, passando pelos cinzas, aos coloridos. Tenho uma amiga que é um elefante branco, não no sentido de estorvo, mas no sentido da maior pureza que o branco signifique. Possuo ainda uma memória típica de um elefante cinza, indiano ou africano, mas elefante. E sou adepta de Ganesha há muitos anos, desde que o conheci e à sua simbologia.


Saramago faz menção ao deus Ganesha, talvez a mais popular das deidades indianas. Pela voz de Subhro, o cornaca ou tratador de elefantes, tomamos intimidades com algumas características especiais dos elefantes, como sua sensibilidade, inteligência e meiguice.

A editora faz menção discreta ao cornaca na apresentação de orelha, o que é uma pena pois é Subhro que nos mantem em contato com o elefante Salomão.

A narrativa trata da viagem de Salomão ou Solimão, levado por seu cornaca Subhro ou Fritz, repetimos - depende se estão em Portugal ou Austria - suas aventuras e perigos. O elefante é um presente do rei de Portugal ao arqueduque e futuro rei de Aústria, Maximiliano. Saramago com sua habitual ironia, faz um paralelo entre as duas civilizações, a Ibérica e a Germânica.

É uma leitura saborosa, engraçada e cheia de possibilidades para uma reflexão a respeito das diferenças humanas.

Cabe assinalar a dualidade que o autor apresenta em suas críticas, há um momento a favor de Portugal, sua gente e sua cultura, a outro enaltecendo o povo austríaco, sua disciplina e organização. Vale especial atenção a comparação que faz entre o Algarves e a cidade italiana de Bressanone que, apesar de estar em território italiano, possui um nome alemão. Ambas sob influência de seus turistas estrangeiros.

O Livro é ótimo, A viagem do elefante se transforma, gradativamente, em viagem do leitor, no tempo e no espaço. Uma delícia.

sábado, 27 de dezembro de 2008

FELIZ ANO NOVO

Que 2008 tenha sido um BOM ANO, que 2009 seja MELHOR AINDA, que traga muita PAZ, HARMONIA entre os homens, PROSPERIDADE no sentido amplo, no melhor sentido da palavra, com CRESCIMENTO pessoal, intelectual e espiritual.

Que 2009 seja o ANO DO ENCONTRO e dos REENCONTROS.


Que 2009 nos traga LIVROS inesquecíveis, LEITURAS transformadoras, que nosso AMOR pelos LIVROS seja irradiado a todos os HOMENS do PLANETA.

FELIZ 2009!

O QUARTO VERMELHO

O último livro de 2008.

Escolhido em função da Leitura de "O Clube Dumas", obra que impressionou e tirou o sono da leitora, mobilizou menos que aquele, cheio de mistérios e surpresas.

Alexandre Duma

O Quarto Vermelho, de Alexandre Dumas, é uma leitura agradável, sua narrativa é fluente e cativante, as peripécias do destino de seus personagens, que hoje já não causam tanto impacto quando na época, ainda delicia o leitor experiente, que sabe o que acontecerá logo após a leitura do parágrafo seguinte.
Mesmo assim é uma ótima opção de leitura
O que mais me impressionou no livro foi a introdução, a narrativa da relação literária entre o autor e Auguste Maquet. Gostaria de encontrar uma obra que aprofundasse essa parceria, pois numa leitura mais aguçada pode-se vislumbrar a imaginação de Maquet como ingrediente insubstituível no tecido da trama.

Dumas é um mestre na narrativa, a fluência, a leveza e a forma como dosa as informações para o leitor, lentamente - como numa teia tecida por uma aranha sagaz - envolve-o e este mergulha na leitura e oferece todo o seu sentir ao autor. E, quando finalmente fecha o livro e coloca-o na estante já está arrebatado, aguardando ansioso por sua nova criação.
Daí a fama de Alexandre Dumas, não tenho dúvida, a cada livro conquistava novos adeptos, e com isso se tornou o DUMAS tão amado de seu público leitor.

sábado, 20 de dezembro de 2008

O GRITO DOS MUDOS - Henrique Schneider

Terra em transe - Glauber Rocha

Uma narrativa plástica, com qualidades de uma sinfonia clássica. Surpreendente pela simplicidade sofisticada da temática e da construção lingüística.

Nicolau é o leitor, é o nosso vizinho, é o nosso colega de trabalho.

A perplexidade que “O Grito dos Mudos” me provocou só aconteceu – até agora – na leitura de Clarice Lispector.

Na aparente singeleza da narrativa de um dia na vida de um trabalhador pobre, membro da esmagadora maioria do grupo dos “mudos”, Schneider denuncia o homem, seus mecanismos de defesa, seu egoísmo, sua natureza predadora de animal perigoso pois que racional.

Van Gogh

A narrativa de Schneider possui um ritmo que pode ser comparado ao de uma “opera do cotidiano”, ou a uma tela de Van Gogh, ou mesmo a um filme de Glauber Rocha, enfim, esta leitura me roubou o sono da última quinta-feira e transformou minha sexta num penoso dia de trabalho.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O CASO VARGINHA

Além de uma narrativa dinâmica e crítica do CASO VARGINHA o autor, com sua costumeira generosidade intelectual, nos brinda com verdadeiras aulas sobre esse assunto apaixonante, a ufologia científica.

Muitos irão sorrir um sorriso irônico ou demonstrar perplexidade com o termo "UFOLOGIA CIENTÍFICA". Para esses indico a leitura da obra de Ubirajara Rodrigues, "O Caso Varginha".

Conheço Ubirajara há muitos anos, tive o prazer de trabalhar no seu escritório de advocacia (a maior banca trabalhista da cidade), pude travar conversas incríveis, sobre os mais diversos assuntos, com este homem ímpar, único, que tive a oportunidade de conhecer quando morei em Varginha. Ubirajara é um advogado respeitável, professor universitário requisitado e ufólogo detentor de credibilidade internacional.

A narrativa sobre a suposta visita de criaturas estranhas naquela cidade é imparcial, os depoimentos, a análise das personagens envolvidas, o jogo de raciocínio que autor mantem com o leitor, se não bastasse o caso por sí, vale a leitura do livro. Por isso indico, para aqueles que têm curiosidade, para os que, de uma forma simplista, acredita na hipótese de boatos, e para tantos outros que trilham o caminho da ufologia "festiva", afirmo: a leitura de "O Caso Varginha" de Ubirajara Rodrigues é uma ótima opção de reflexão, não só para a ufologia, mas para os mais diversos fatos sociais para os quais lançamos um olhar desprovido de análise e reflexão.

Destaco o Capítulo 07 - Presente de Grego, tenho certeza que gostarão. Alerto também para o Capítulo 15, onde o autor efetua uma sincera e realísta análise da atividade que desenvolve com tanto esmero, a Ufologia.

sábado, 29 de novembro de 2008

A Cura de Schopenhauer

Em 2005 tive meu primeiro contato com Irvin Yalom através da leitura do seu livro mais conhecido, Quando Nietzsche Chorou. Devo confessar que fiquei encantada, não só com a narrativa fluente e clara, mas principalmente pelo excelente trabalho de pesquisa e credibilidade que envolvia a famosa personagem. Irvin humanizou um Nietzsche que chegou até nós, leigos, como um um louco excêntrico. "Quando Nietzsche Chourou" faz parte da relação das leituras que ficaram gravadas no meu universo interior.
Agora termino a leitura de A Cura de Schopenhauer, do mesmo autor.
Um livro de qualidade, como parecer ser a marca de Irvin D. Yalom, com narrativa carregada de emoção. A terapia de grupo é o epicentro onde Philip (o Schopenhauer simbólico) é tratado por Julius (um terapeuta moribundo). A terapia é intensificada pelo prazo de validade do grupo, que é comunicado da doença terminal do psiquiatra que possui apenas um ano de vida saudável. A obra inteira se resume nisto. No decorrer dos trabalhos terapeuticos vamos participando dos problemas existenciais dos elementos do grupo, todos envolvidos pela aurea do sexo, início e fim de todas as patologias (princípio freudiano com raízes em Schopenhauer).
Schopenhauer está no grupo (representado por Philip) porque precisa curar seu isolamento, seu pessimismo e sua descrença na natureza humana que chama de "Bípedes". Durante a leitura somos agraciados com a história da vida (em capítulos alternados) de Arthur Schopenhauer, que dá o embasamento ao leitor para efetuar a leitura psicanalítica da personagem.
O livro é bom, merece ser lido até o final, mas não deixa aquele gosto típico das leituras inesquecíveis. "Quando Nietzsche Chorou" é a OBRA do autor, o marco na produção literária de Irvin D.Yalom, e como tal, incomparável.

sábado, 15 de novembro de 2008

FUGALAÇA - Mayra Dias Gomes


"[...] Era sempre igual. Sempre a insatisfação, sempre a espera, sempre a preguiça, sempre o ócio, sempre o medo, sempre a mutilação, sempre a solidaõ e sempre as vozes. Sempre os excessos. Sempre me perdia em caminhos desconhecidos procurando razões, razões demais. Sempre esperava que algo me salvasse de mim mesma, esperava demais. Sempre me entregava à paralisia e à letargia, me entrega demais. Sempre deixava de falar ou de fazer, calada pelas expectativas medrosas, medrosas demais. Sempre vagava em multidões, olhando sem ver, se sentindo sozinha, sozinha demais. Sempre ouvia os sussurros berrantes das vozes na minha cabeça, prestava atenção demais. Sempre me julgavam excessiva e eu tantava me provar demais. Sempre demais. Mas eu só estava sendo eu mesma, e este só não é nenhum excesso. Este só não é demais.[...]"
Só quem vivenciou as experiências narradas pela adolescente de 16 anos - Satine - pode entender o significado da "dor". Identifiquei atônita, na obra de Mayra, então com 17 anos, a minha própria adolescência. Solidária com a "dor" da personagem, que se confunde com a dor da autora, vivenciei minha própria "dor". Também sofri, e sofro, com a incompreensão, com a indiferença, com a solidão mais profunda, a solidão da ausência de interlocução. O pior, e para Satine/Mayra ainda é uma incognita, é que o tempo passa, as rugas surgem, a pele se torna lisa e sem elasticidade, cai tudo, a bunda, os seios, a esperança, as ilusões... mas a única coisa que não muda, que permanece, é a "dor". A maturidade nos dá maior controle sobre Ela, mas sabemos que está lá, no coração e na mente.

"[...] Na verdade a batalha não é entre o Bem e o Mal. A guerra não passa de uma confrontação do Coração com a Mente. A mente, lá em cima na cabeça, acha que é superior ao coração e mesmo quando ele dói ela ordena que ele continue. [...]"

Satine corta os pulsos, não é para se matar, para provocar uma dor física que supere a insuportável dor emocional. Mas corta fundo demais e o seu gesto se torna uma tentativa de suicídio. Mais uma vez fazem uma leitura simplista de seus gestos. Descontrolada, imatura, viciada, enfim, rótulos que sequer arranham a essência do sentir da personagem.

Uma menina de dezessete anos, filha de Dias Gomes e Janete Clair, escreveu o livro e publicou em 2007 pela editora Record.

A AUTORA

"Existem doses fortes de realidade e doses fortes de ficção neste livro. A história é um mesclado daquilo que vivi com aquilo que presenciei. Seja através de pessoas que passaram pela minha vida ou através da minha imaginação. Satine é meu alter-ego, o outro eu - aquele que posso controlar e dirigir. Posso minimizar, maximizar, dramatizar, romantizar ou modificar sua história. Há uma grande semelhança com o mundo em que vivi, pois escrevo sobre o que sei e o que sei faz parte de quem sou. "

sábado, 8 de novembro de 2008

O JOGO DO ANJO

Ruiz surpreende mais uma vez. "O Jogo do Anjo", apesar da publicação posterior ao sucesso de "A Sombra do Vento", antecede-o no tempo. O cenário ainda é Barcelona, dessa vez a Barcelona dos anos 20. Nas páginas de "O Jogo do Anjo", conhecemos o avô de Daniel Sempere e sua mãe, Isabella, que no livro anterior é o gatilho da trama cujo filho é o protagonista.

O cemitério dos livros esquecidos é apresentado a David Martin - menino pobre, sofredor e pretenso escritor apaixonado por livros - que protagoniza a história de mistério e suspense que o autor nos apresenta nas 400 páginas de narrativa hipnótica, por Sempere avô.
Sob a ótica acadêmica literária, "O Jogo do Anjo" é uma obra mais elaborada, trabalhada com esmêro e tecida com o cuidado e a paciência da lagarta da sêda. Mas perde para o lirismo transbordante de "A Sombra do Vento". Os personagens nebulosos contam uma história fantástica que no avançar da leitura vai se desvendando. No entanto, apesar do autor dizer, acreditamos que o que diz não é, e buscamos - à cada página virada - a grande revelação. Quando ela é desvanda? Será que devo contar?.......... Acho que não.
Leiam o livro!

SÓ ENCONTREI A CAPA EM ESPANHOL, MAS A OBRA JÁ ESTÁ A VENDA EM PORTUGUÊS.

domingo, 26 de outubro de 2008

A BÚSSULA DE OURO

Lyra Belacqua (Dakota Blue Richards) é uma órfã que foi criada na Universidade Oxford. No mundo em que vive todas as pessoas têm um "daemon", ou seja, uma manifestação de sua própria alma em forma animal. Lyra leva uma vida tranqüila até ela e seu daemon, Pantalaimon, descobrirem a existência de uma substância misteriosa chamada "pó". Isto provoca um estranho efeito nas crianças, o que faz com que as autoridades religiosas se convençam de que representa o mal. Seguindo o misterioso Lorde Asriel (Daniel Craig), seu protetor, Lyra parte em busca de uma resposta. Em Londres ela descobre que diversas crianças estão desaparecendo, entre elas Roger (Ben Walker), seu melhor amigo. Com a ajuda de um instrumento ancestral, que se parece com uma bússola de ouro, ela parte numa jornada que pode alterar o mundo para sempre.
Clique a navegue pelo filme, é um barato, divertido, cheio de metáforas e simbolismo, mistico e um canto de amor aos animais.
Eu indico.

Ernesto Guevara, também conhecido como CHE

Livro em portuguêsBrochura1ª Edição - 2008 - 728 pág.
Há mais de 40 anos de sua morte - e 80 anos de seu nascimento - seu compromisso com a história permanece um símbolo de rebelião, esperança e justiça. Ernesto Guevara, também conhecido como Che é uma biografia minuciosa e detalhada, que revela na sua plenitude um homem sempre pronto para a luta. Paco Ignácio Taibo II, a partir de um vasto material e recorrendo a textos do Che - fragmentos de cartas pessoais e públicas, diários, notas manuscritas, artigos, poemas, livros, discursos, conferências, declarações em atas, entrevistas, frases e testemunhos de companheiros -, faz do próprio Che o segundo narrador desta história

Sempre efetuo comentários sobre os livros que me agradam. Também sou conhecida como admiradora de Che Guevara. No entanto há um vasto material sobre esse personagem que motiva amor e ódio, por isso vou me abster de escrever sobre o biografado e aconselhar a leitura da obra que, até então, foi a mais séria e isenta que li sobre esse homem impar que marcou gerações.
Paco Ignácio Taibo II que efetuou um trabalho excelente, com a colaboração de Che e citação explicita das fontes, nos oferece um relato fiel da trajetória de Ernesto Che Guevara.
Aos que amam a figura revolucionária do Che, aos que se emocionam com sua postura quixotesca, como eu, aos que o odeiam e não creem possível existir alguém com a sua personalidade, a todos indico a leitura deste livro que, com suas 728 páginas, dentre as quais 100 são de fontes e bibliografia pesquisada, nos faz pensar e repensar a maior parte daquilo que sabemos sobre o homem, o guerrilheiro, o poeta, o sonhador, Che.
Sobre o autor

Paco Ignacio Taibo II, narrador, historiador y periodista, es autor de cerca de 50 obras publicadas en 21 países y traducidas a una docena de lenguas. Ha obtenido el Premio Planeta / Joaquín Mortiz 1992 y tres veces el Premio Internacional Dashiell Hammett. Su biografía del Che Guevara publicada em 1996, lleva más de 260 000 ejemplares vendidos en 18 países y en 1998 obtuvo el Premio Bancarella por ser el 'libro del año' en Italia.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A SOMBRA DO VENTO

A leitura de “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón é uma experiência impar, onde a reflexão objetiva, as idéias filosóficas, sociológicas e/ou políticas cedem espaço para o simples sentir. Substantivado o verbo, ampliada a semântica, o sentir se torna o nome da subjetividade levada às suas mais assustadoras conseqüências: a perdição pela insanidade.

Zafón propicia ao leitor essa viagem alucinada/alucinante por uma realidade cruel – nem por isso desprovida de lirismo – e verdadeira, carregada de fantasia. É isso mesmo, CONTRADIÇÃO ABSOLUTA.

Ao fechar o livro e, ato contínuo, abraçá-lo junto ao peito, tem-se a certeza que se esta diante da própria história. Comprovada a inutilidade de todas as tentativas de tornar-se especial, está-se sempre repetindo existências antepassadas. A vida é um eterno repetir de histórias, a exemplo do apresentado no filme “Les um et les autres”, de Claude Lelouch, 1981.

A obra, além de metalingüística, pois enaltece e canta com primor a arte literária, tanto por parte do escritor como do leitor: “[...] Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito cresce e a pessoa se fortalece.” P.9, é também, ao mesmo tempo, suspense e mistério.
O primeiro contato de Daniel, um dos inúmeros narradores, com um livro, efetua a mudança no menino de dez anos que permeará sua existência adulta.
“[...] poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho ao seu coração. As primeiras imagens, o eco dessas palavras que pensamos ter deixado para trás, nos acompanham por toda a vida e esculpem um palácio em nossa memória ao qual mais cedo ou mais tarde – não importa os livros que leiamos, os mundos que descubramos, o quanto aprendamos ou nos esqueçamos – iremos retornar.” P.11
...........................................................................................................................................
“... os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro...” p.174

Carlos Ruiz Zafón

A narrativa é cinematográfica, fragmentada, com personagens narradores, misturando estilos. A linguagem ferina e cruel provoca náusea. O impacto faz da obra um fenômeno editorial pela ousadia do autor.

“ [...] Daniel ‘as pessoas são muito malvadas.’ ‘Malvadas não – observou Fermín – Imbecis, o que não é a mesma coisa. O mal pressupõe uma determinação moral, intenção e certa inteligência. O imbecil ou selvagem não pára para pensar ou raciocinar. Age por instinto, como besta de estábulo, convencido de que está fazendo o bem, de que sempre tem razão e orgulhoso de sair fodendo, desculpe, tudo aquilo que lhe parece diferente dele próprio, seja em relação à cor, credo, idioma, nacionalidade (...). O que faz falta no mundo é mais gente ruim de verdade e menos espertalhões limítrofes.’ P.129

“[...] Observei aquele grupo de despojos humanos (velhos num asilo) num canto e sorri. Sua mera presença me pareceu um estratagema de propaganda em favor do vazio moral do universo e da brutalidade mecânica com que este detruía as peças que já não lhe pareciam úteis.”
..........................................................................................................................................
... “A mãe natureza é uma grande puta, é a triste realidade.” P.209

“[...] Juanito só sabe soltar “peidos” e esses aí só sabem rir e aspirá-los. Com vê, a estrutura social aqui (no asilo) não é muito diferente da do mundo lá fora.” P. 210

Priorizado o sentir, secundarizado o racional, a obra de Zafón dá o alerta final para a perda maior do homem nos tempos da mídia de imagens na voz de Beatriz:

“[...] Bea diz que a arte de ler está morrendo muito aos poucos, que é um ritual intimo, que um livro é um espelho e só podemos encontrar nele o que carregamos dentro de nós, que colocamos nossa mente e alma na leitura, e que esses bens estão cada dia mais escassos.” P 396

Gostaria de propor aos meus leitores (que não são muitos), uma brincadeira. Vamos colocar no espaço para comentários o título e o nome do autor do nosso primeiro livro, seguido de nossas impressões imediatas e das influências que exerceram em nossas vidas até agora. Para motivá-los darei o primeiro depoimento.

Minha primeira leitura foi aos nove anos. Na biblioteca da escola peguei um volume da Edição Maravilhosa – As Aventuras de Marco Pólo – Ano I no.12 da Coleção Clássicos Ilustrados, de Adolfo Aizen. Fiquei tão impressionada, que não falava em outra coisa. Meu pai, motivado pelo meu interesse, me presenteou com uma coleção de cem livros infantis – que possuo até os dias de hoje. A viagem que fiz junto com Marco Pólo despertou em mim a necessidade de repetir aquela emoção. Descobri, e mantenho até a idade outonal o prazer por essas aventuras fantásticas pelas páginas de um livro
.