domingo, 28 de setembro de 2008

ORAÇÃO PARA QUEM ESTÁ ENVELHECENDO

Oração para quem está envelhecendo
psicografado por Raul Teixeira


Senhor, tu sabes que estou envelhecendo.
Ajuda-me a pensar que não sou uma peça imprestável, no movimento da vida.
Reconheço que não tenho mais as mesmas capacidades físicas, que me animaram a juventude, nem os mesmos reflexos e disposição.
Contudo, auxilia-me a não desanimar, e muito menos pedir, aposentadoria indevida das lides do mundo.

Não me deixes emurchecer, como flor queimada pelo sol.

Não permitas que eu tenha a idéia fixa de falar de mim o tempo todo. Impede-me de repetir detalhes infindáveis.

Dá-me rapidez para que eu seja objetivo.

Fecha a minha boca quando eu estiver propenso a falar de minhas dores e de meus sofrimentos. Eles estão aumentando com o passar dos anos, e meu desejo de falar deles aumenta a cada dia.

Ensina-me a dialogar, sem me fazer excessivamente falador, a fim de não causar indisposição nos demais.

Não me permitas conceber limitações desnecessárias.

Coloca as minhas mãos no trabalho a fim de que eu elabore ainda criações no campo da música, da pintura, da jardinagem, da cerâmica.

Ensina-me a melhor ocupação para o tempo que disponho. Um tempo que, desde os dias da juventude, reclamava não ter. Permita que eu me levante a cada dia disposto a aprender alguma coisa mais. Pode ser uma forma diferente de usar o pincel, uma breve poesia, um ensinamento, uma receita surpreendente.

Desejo ser jovial sem parecer tolo e imprudente.

Torna-me solícito mas não abelhudo. Prestativo, mas não dominador.
Desejo ser um avô que possa contribuir com a educação dos meus netos e não os deseducar, com a única finalidade de que apreciem sair comigo, nas tardes de primavera.

Ensina-me, ainda, a gloriosa lição de que, às vezes, posso estar errado.

Aprendi muito, guardo experiências preciosas, mas não tenho o direito de desprezar os avanços da modernidade e da ciência. Depois de ter adquirido uma enorme bagagem de sabedoria e experiência, parece uma pena eu não poder usá-la totalmente, sem criar embaraços aos demais.

Se a dependência física se tornar necessária, ajuda-me Deus, a ter paciência comigo mesmo, suportando o corpo que tanto me serviu até aqui. Com ele eu dancei, cantei, viajei, vivi doçuras, momentos bons e maus. Auxilia-me a continuar a amá-lo.

Tu sabes que precisarei não ser inconveniente, a fim de não incomodar tanto aos demais.
Por isso, te peço que me ensines a pensar duas vezes, antes de reclamar, insistir e exigir o que quer que seja, a quem tenha que cuidar de mim.

Não me permitas secar a fonte das lágrimas. Precisarei delas, com certeza, nas horas de tristeza, para desafogar o coração cansado. Entretanto, não me deixes tornar um ser melancólico e chorão.
Permite-me gozar do calor do sol e da bênção da chuva, com o mesmo entusiasmo de sempre.

E, finalmente, Senhor, o meu desejo final é ter sempre alguns amigos.
Esses seres abençoados que, no mar imenso da vida, qual jangada preciosa, remaram firmemente ao meu lado. Muitos deles poderão partir antes de mim, mas permite que alguns permaneçam a fim de que nunca desapareça de vista a expectativa das suas presenças.

Enfim, Senhor, torna-me um ancião nobre, que demonstre a sabedoria do envelhecimento digno.

A vida é constituída de muitas fases. Aprenda a viver cada uma delas, com todo o entusiasmo porque a infância, a adolescência, a juventude, a madureza e a velhice têm cada qual o seu encanto particular.

Não se permita viver sem descobri-lo para jamais se sentir infeliz por passar de uma fase para outra. O segredo da felicidade é viver cada dia em plenitude.

sábado, 13 de setembro de 2008

BREVES CONSIDERAÇÕES


EU É UM OUTRO
Roberto Freire




A Autobiografia de Roberto Freire é, sem dúvida alguma, uma excelente leitura. O livro me foi indicado, e disponibilizado, por um recem conquistado amigo que tem me proporcionado muitas alegrias. Nossa interlocução é, sem dúvida, muito prazerosa.

A leitura de uma autobiografia sempre me preocupou, mas Roberto Freire (o Bigode) consegue efetuar uma reflexão clara e isenta da sua vida, seus amores, seus ideais e, o mais importante, suas escolhas.

Para quem já leu sua obra, a leitura de "Eu é um Outro" será uma descoberta muito interessante, para quem não leu a obra do Bigode, a leitura de "Eu é um Outro" será a motivação que faltava para fazê-lo.


O SALÁRIO DO MEDO
Georges Arnaoud

Este foi o meu primeiro contato com esse autor francês. Se gostei? Ainda não sei.

Foi uma leitura difícil, não sei se pela tradução no português de Portugal - coisa que jamais me atrapalhou na leitura de SARAMAGO - ou se pela narrativa em si.
Arnaoud conta a história de quatro vagabundos, cada um de uma nacionalidade, que aceitam um trabalho perigoso para uma empresa de Petroleo americana pelo dinheiro e a possibilidade de sair daquele lugar perdido na America do Sul.

Com esse pano de fundo o autor efetua uma leitura singular com relação a natureza humana, suas lutas, suas derrotas e suas vitórias. Gerard, um homem de garra e estóico, conquista a luta que trava pela sobrevivência, vence cada etapa deixando pedaços de sí pelo caminho. A relação do motorista, Gerard, com o caminhão e sua carga explosiva é a metáfora da relação do homem com o meio - tanto social como familiar - e seus perigos.

O livro que se tornou filme em 1953 na Direção de Henri Georges Clouzot estrelado por Ivys Montand, foi o sucesso da época.

O que impressiona é a vulnerabilidade que as vitória, o entusiasmo, a alegria extrema pode causar no homem acostumado com perdas, lutas e derrotas.

Será uma obra que deixarei para uma segunda leitura mais tarde, daqui há alguns meses. Preciso saber se gostei ou se odiei, não posso ficar neste estado de dúvida impactante em que me encontro neste momento, algumas horas após terminada a leitura.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

The Fever

Filme / Drama
Nome Original: The Fever
Direção: Carlo Gabriel Nero
Elenco: Vanessa Redgrave, Michael Moore, Joely Richardson, Rade Sherbedgia, Geraldine James, Angelina Jolie, Cameron D'Angelo, Miriam Turner, Daria Knez
País: EUA/Reino Unido
Ano: 2004
Duração: 83 min
Cor: Colorido
Classificação: Programa para jovens e adultos

Uma inglesa desperta, à meia-noite, num hotel de um país em guerra. Ela tem febre e começa a relembrar seu passado acomodado e as pessoas que mudaram sua visão de mundo. E descobre que de algum modo contribuiu com a violência gerada pela miséria.
Como você se sentiria se, em dado momento, sua lucidez lhe desvendasse a realidade da miséria humana? Tortura, fome, morte, dor, perda, carência, sujeira.

Você construiu seu mundo protegido, provido de todos os confortos de uma existência digna. Você lutou muito, estudou, trabalhou, criou seus filhos (hoje sua maior realização, motivo de orgulho e auto-estima). Você merece vivenciar as coisas bonitas, limpeza, arte, a boa mesa e os bons vinhos. Champagne. Você gosta da sua vida, está protegido. É um espectador da realidade. Da janela de seu carro, ou de seu táxi, ou mesmo do ônibus, você vê a miséria. Os mendigos que dormem na rua enquanto você vai para o trabalho. Os pedintes, os corpos cobertos de lona negra aguardando o IML. As balas perdidas na favela, a fome. A violência que fervilha à sua porta, tão perto, distante do mundo que você construiu. Não. Você não é um alienado, você sabe de tudo o que está acontecendo à sua volta. Compadece-se, mas nada pode fazer, a vida é assim; para alguns é mais fácil e para muitos, impossível. Você sozinho não pode fazer nada. É um problema de políticas públicas.

Mas suponhamos que num dado momento você acesse a realidade, não como espectador, não no conforto do seu quarto, da sua casa, do seu carro, do seu trabalho. Mas “in loco”. Você decide viver uma semana na favela, junto ao povo, sentindo o seu cheiro, sua fome, ouvindo sua linguagem, presenciando a tortura, a morte. Vamos supor que isso seja possível – que você queira essa experiência – já imaginou quais seriam as conseqüências? Você poderia retornar à sua vida estruturada e segura? Como seria para sua alma?

O filme “The Fever” aborda justamente esta questão.

É um filme denso, uma “pancada” na boca do estômago.
Não é uma abordagem a partir das injustiças sociais, pelo contrário, a abordagem é a partir de uma mulher madura, realizada, burguesa nos gostos e na existência. No entanto é uma mulher inteligente e sensível – apesar de toda a proteção que sempre teve da família, dos amigos e dos vizinhos (segundo ela mesma acredita).
Mas na próxima esquina, no momento de ir ao supermercado para abastecer a casa. Na hora de escolher a roupa que se usará para aquele encontro. No crepúsculo do dia, quando a cama é o destino. Tudo se perde, o sentido de sobrevivência é muito forte, precisamos viver, precisamos conviver, de preferência sem a dor.

E, com o cessar da febre, você retorna à segurança de seu mundo. Não é seu o problema. Mas tudo será da mesma forma? Você está limpo? Até que ponto foi contaminado pela convivência com a miséria?

Após assistir às belíssimas imagens, vivenciar a metáfora da descoberta (seu corpo ensangüentado, torturado e preso), quando surge na tela aquelas letrinhas pequenas que nos deixam perdidos, sem saber o que fazer nos próximos segundos, fica a questão, a pergunta milenar, a dúvida, o medo, a insegurança. O que fazer?

domingo, 24 de agosto de 2008

O RISCO DO BORDADO

MINAS by Miari
A obra de Autran Dourado – O Risco do Bordado – nos remete aos tempos de meninice no interior das Minas Gerais. Nas fazendas de café, em plena ascensão do ouro verde no mercado exterior, não havia luz elétrica. Ao anoitecer, depois do jantar, nos reuníamos sob a luz do lampião de querosene na ampla cozinha, onde reinava absoluto o fogão de lenha. Os casos contados pelos mais velhos prendiam a atenção da criançada.

A narrativa lírica é construída para absorver o leitor sem, contudo, satisfazer por completo sua objetividade. A magia está na subjetividade.
O autor deixa a cada “causo” contado um gostinho de quero mais, generoso dá ao leitor o direito de co-autor na sua criação.
“O Risco do Bordado” tem o cheiro das montanhas do Sul de Minas. Duas Pontes é, simultaneamente, Guaxupé, Três Pontas, Boa Esperança, entre outras cidades, pequenas mas ricas em histórias, mistérios e poesia.
TRES PONTAS - by Miari

Dourado descreve a natureza humana; com suas misérias, patologias, medos, sua coragem, perversões, amores, pelos olhos inocentes de um menino que com sua viagem para a cidade grande, com o fim de completar os estudos, se afasta de suas raízes, mas sem romper o elo com aquelas histórias, com aqueles personagens que povoaram seus sonhos de menino. Já adulto retoma contato através de personagens ainda vivos. É quando Autran permite ao leitor um retorno gradativo, mas eficiente, à realidade não menos poética da existência adulta de João.
Gosto de selecionar um trecho das obras que leio como síntese da narrativa. O Risco do Bordado poetiza sobre o tempo, sobre o amadurecer, sobre juventude e velhice, sobre perdas, enfim, sobre a vida. Ei-lo:

“[...] As coisas mudavam e o tempo passava não só dentro dele e nos olhos dos outros. Havia várias qualidades de tempo: o tempo presente – o tempo dos outros, que depois ele incorporaria à massa geral informe do tempo e seria transformado no seu próprio tempo quando depois ele procurasse lembrar; o tempo passado – o seu próprio tempo, que vivia uma existência paralela à sua, que ele não podia controlar; o tempo das montanhas e das coisas inanimadas (para nós), móveis e fluidas diante da eternidade, o sem-tempo de Deus. [...]”

MINAS by Miari

Quem teve a oportunidade de conhecer as cores vibrantes, o aroma delicado, a brisa estonteante das Minas Gerais do Sul, se afastado sentirá saudades, se presente sentirá orgulho das histórias narradas por Autran Dourado em “O risco do Bordado”.

As fotos aqui apresentadas podem ser apreciadas na página de um talentoso mineiro de Três Pontas, Alessandro Miari. http://www.flickr.com/photos/alessandromiari/

sábado, 26 de julho de 2008

AS BRASAS - Sàndor Màrai

"[...] Quer que lhe diga?...
'
A gente vai envelhecendo aos poucos: numa primeira fase, atenua-se a vontade de viver e de ver nossos semelhantes. Vai prevalecendo o sentido da realidade, vai se esclarecendo o significado das coisas, você acha que os acontecimentos se repetem monótona e fastidiosamente. Isso também é um sinal de velhice. Finalmente, você percebe que um corpo é apenas um corpo e que os homens, pouco importa o que façam, são apenas criaturas mortais. Depois, seu corpo envelhece, não todo de uma vez, é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração.
Vai
A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou. Já sabe exatamente o que o dia apresentará a seus olhos: a primavera ou o inverno, os cenários habituais, as condições atmosféricas, a ordem dos fatos.
Nada de surpreendente pode acontecer:
Nada de surpreendente pode acontecer: não o surpreendem nem sequer os fatos inesperados, insólitos ou horripilantes, porque você conhece todas as probalidades, já previu tudo e não espera mais nada, nem para o bem nem para o mal... e esta é a verdadeira velhice. E no entanto, alguma coisa ainda vive em seu coração, uma lembrança, uma vaga e nebulosa esperança, há alguém que gostaria de ver, há algo que ainda gostaria de dizer ou saber. Um dia, você tem absoluta certeza, chegará esse momento, e então, de repente, saber e enfrentar a verdade já não lhe parecerá tremendamente importante como imaginara durante os anos de espera. O homem compreende o mundo um pouco de cada vez, e depois morre." (p.150)

domingo, 20 de julho de 2008

A 25a.HORA

por Anália Maia


Tive uma infância solitária.

Os motivos não os conheço, mas desde a Escola Primária meus companheiros de aula me rejeitavam, não escondiam o desprezo que sentiam. Talvez seja meu sentimento internalizado de rejeição, ou minha arrogância em permanecer humana. Creio que já me acostumei, mas a sensação de inadaptabilidade permanece em mim. Não importa, já não necessito da aprovação social.

Desde então tenho sempre ao meu lado um verdadeiro amigo. O amor intenso e cheio de gratidão que sinto é retribuído por uma fonte inesgotável de prazer. À minha solitária existência é oferecida a beleza das cores, a alegria do pulsar ritmado da paixão. Passados os anos ainda o tenho ao meu lado; disponível, aberto, cheio de aventuras e, sobretudo, de ensinamentos que me alimentam e amadurecem o espírito.


Cada livro que leio me transforma um pouco. Alguns são inócuos, mas não de todo porque me divertem, outros são agradáveis, fornecem combustível para continuar vivendo, outros, ainda, transformam, levam-me às reflexões profundas donde emirjo amadurecida, endurecida, pronta para novas chibatadas. Consciente da minha solidão, mas sem viver na solidão. Os livros não me permitem ficar só. “[...] – Eu sou escritor – disse Traian – Para mim, um escritor é um domador. Quando se mostra aos seres humanos o Belo, isto é, a Verdade, eles amansam. [...]” (p. 260) “[...] – Eu sou poeta, George – disse Traian – Possuo um sentido que os outros não têm e que me permite entrever o futuro. O poeta é um profeta. [...] Tenho que gritar aos quatro ventos, mesmo que o grito não agrade.[...]”

Assim, os escritores vão construindo minha existência, forjando o metal disforme da sensibilidade no mais puro ouro jamais visto – pois que oculto – pelo homem. Isso é alquimia. São, portanto, alquimistas, os escritores.

Há anos passados, na minha juventude, li a obra de VIRGIL GHEORGIU “A 25º. Hora”. Gostei tanto que por algum tempo serviu-me de parâmetro para a leitura do Mundo. No entusiasmo e deslumbramento de minha juventude não pude ir além das mensagens mais evidentes, que se transformaram em slogan para a minha geração.

Hoje terminei a nova leitura do livro de Virgil. Fui tomada de incrível surpresa. Não só por sua atualidade aos tempos hoje vividos (a trama se dá nos primeiros anos do surgimento da Civilização Técnica Ocidental – nos anos 40 do século XX), onde: “[...] O homem por reduzido a uma única das suas dimensões: a dimensão social. Foi transformado em Cidadão, que já não é sinônimo da dimensão de homem. [...]” (p.382)

O sentir perdeu espaço para a estatística. A racionalidade é hoje, formada pela máquina da mídia (4º. Poder) que leva o homem a pensar em bloco, como parte de uma categoria. Essas categorias são identificadas pelo Ibope na programação das televisões. É desintegração do homem individual, que fica à margem percentual dos que “não sabem” ou “não querem opinar”, “[...] e tornar-se-á o riso de toda a gente se quiser levar uma existência individual.[...]” (p.48) Um Ser anti-social , maior pecado para um cidadão do século XXI. “[...] Essa sociedade só conhece algumas dimensões do indivíduo. O homem integral individualmente tomado já não existe para eles.[...]” (p.243)

Certa vez um amigo querido afirmou que sou apaixonada demais, tudo que vivo é intenso, mergulho com paixão nas coisas e por esse motivo não consigo manter o foco, realizar algo importante na Civilização Técnica Ocidental. É verdade, fiquei “em cima do muro”, sobrevivendo da máquina social e me alimentando da existência espiritual. Não me arrependo, pelo menos sobrevivi com o espírito livre.

Vou terminar (pois se continuar jamais poderei encerrar) com o texto em que Nora West, judia romena, rejeita o pedido de casamento do Tenente Lewis, responsável pelo Campo de Concentração Americano na Alemanha pós Hitler. Faço de suas palavras (na íntegra) as minhas, para o Mundo e para aqueles que amo da forma descrita por Nora:

“[...] – Ouça, Sr. Lewis! – disse Nora. – Depois de ter ouvido as declarações de amor de Petrarca, Goethe, Lord Byron, Púchkin; depois de ter ouvido Traian Koruga (seu marido morto no campo de concentração americano) falar-me de amor; depois de ter ouvido as canções dos trovadores e de os ter visto de joelhos diante de mim, como de uma rainha; depois de ter visto matarem-se por minha causa reis e cavaleiros; depois de ter falado de amor com Valéry, Rilke, D’Annunzio, Eliot; como poderia eu tomar a sério essa proposta de casamento que o senhor me atira à cara ao mesmo tempo que o fumo do seu cigarro? [...]”
“[...] – O amor é uma paixão, Sr. Lewis – disse ela – já deve ter ouvido dizer isso, ou, pelo menos, leu-o em qualquer parte. [...] O amor, a suprema paixão, só pode existir numa sociedade que ache que cada ser humano é insubstituível e único. A sociedade a que senhor pertence crê, pelo contrário, que cada homem é perfeitamente substituível.



VIRGIL GHEORGIU nasceu em 1916 na Roménia e faleceu em 1992 em Paris. Estudou em colégios militares romenos, depois na Faculdade de Letras de Bucareste, depois Teologia, na Alemanha. Após a ocupação da Roménia pela União Soviética, em 1944, instalou-se em França onde foi ordenado padre da Igreja Ortodoxa em 1963 e posteriormente patriarca em 1971. Escreveu mais de quarenta livros, entre romances e ensaios.

domingo, 13 de julho de 2008

NÃO ESTOU LÁ

por Angélica Bito

Assim como no excelente Velvet Goldmine (1998), o diretor Todd Haynes inspira em acontecimentos de uma lendária figura da música para traçar um filme totalmente único. Se no filme de 1998, as inspirações foram David Bowie e Iggy Pop, em Não Estou Lá, o cantor folk norte-americano Bob Dylan e suas experiências servem base para a criação de um roteiro.

Inspirado pelas músicas e muitas vidas de Bob Dylan, como explica um letreiro logo no início do longa, Não Estou Lá (também nome de uma música do cantor) traz várias histórias de personagens que vivem passagens da vida de Dylan. Atores do naipe de Christian Bale, Cate Blanchett, Richard Gere, Heath Ledger, Charlotte Gainsbourg e Julianne Moore embarcaram neste ousado projeto de Haynes interpretando as muitas faces e personalidades que envolvem a biografia do cantor.

Ao mesmo tempo em que se inspira por passagens lendárias na vida do cantor – como quando ele apresentou a maconha aos Beatles, que fumaram a erva pela primeira vez acompanhados pelo cantor em visita à Inglaterra -, Não Estou Lá desenvolve histórias e personalidades a cada um dos personagens também tendo como base as canções de Dylan. Todas as histórias são interessantíssimas de serem acompanhadas e são intercaladas de uma forma harmoniosa. Mas, sem sombra de dúvidas, a mais interessante é a de Jude graças à atuação memorável de Cate Blanchett, que encarna o cantor no auge de sua popularidade, durante os anos 60. Ela é capaz de representar muito bem essa dualidade encontrada no próprio artista que, ao mesmo tempo em que se tornava cada vez mais popular, era acusado de mudar sua arte para vender mais discos.


Como não poderia deixar de ser, a trilha sonora de Não Estou Lá é genial. Além de ser composta por belas canções de Dylan, ainda traz versões de suas músicas feitas por artistas como Stephen Malkmus, ex-vocalista da banda indie Pavement; Sonic Youth, cantando a música que dá nome ao filme; Yoa La Tengo; Sufjan Stevens; a atriz Charlotte Gainsbourg fazendo dueto com a banda Calexico; Antony And The Johnstons interpretando uma linda versão de Knocking On Heaven’s Door durante os créditos finais; Jeff Tweedy (vocalista do Wilco) e Cat Power. Tenho certeza que somente este parágrafo convencerá muitos a se abalarem até o cinema.

Ao mesmo tempo em que Bob Dylan é considerado não somente um cantor, mas principalmente um poeta, um trovador norte-americano, Não Estou Lá é mais do que uma cinebiografia, sendo totalmente diferente dos filmes do gênero produzidos a rodo atualmente por Hollywood. Não Estou Lá tem inspiração na vida real de Dylan, mas aparece mais como um grande rompante de inspiração de Haynes. Entrecortado, recortado e com diálogos geniais, o longa pode ser visto como uma versão cinematográfica de uma canção de Dylan.

sábado, 12 de julho de 2008

SANGUE DE AMOR CORRESPONDIDO


A leitura dessa obra de Manuel Puig é um desafio para qualquer leitor, mesmo para o leitor escritor. Nele será impossível aplicar as inferências realizadas pela leitura de Francine Prose "Para Ler como Um Escritor". Nesse caso, de Puig, é necessário ler como "fratura exposta", como Ser livre de preconceitos, principalmente o linguístico, tão comum entre os "intelectuais".

Pausa para me desculpar pelo excesso de aspas. Espero que compeendam.

Mas voltando a Puig, a obra é um mistério a ser desvendado pelo leitor, que é arrebatado pela curiosidade desde as primeiras linhas.

São 202 páginas de puro delírio, onde o dispositivo de defesa do narrador viaja por fantasias eróticas para fugir da realidade de sua vida insípida e desconexa. A narrativa é desconexa, incrível. Puig trama a sua história pelo caminho inverso do apontado por Prose; a liberdade criativa se faz sentir em cada palavra, na pontuação, nos parágrafos, e, até mesmo, na personagem narradora. Apesar da narrativa ser em terceira pessoa, quem nos conta sua história é o próprio Josemar, portanto, personagem narrador.

Mas não esperem uma história linear, o livro é um desabafo. A fuga de um brasileiro típico da realidade brasileira. Da "roça" vai morar em Guarulhos e depois vai para o Rio de Janeiro na busca de melhores oportunidades na vida. Josemar é pedreiro "formado" e eletricista. A época é apresentada na linguagem - escrita e falada - por Josemar e seus antagonistas.
O Leitor se torna co-autor; deduz, reflete, "dá ré" - retorna a leitura de páginas já lidas - compara trechos. Ao mesmo tempo sente: o perfume das noites de lua, o aroma do sexo feito com prazer e vontade, o azedo da fome, o amargo da solidão.
É o primeiro romance de Manuel Puig (escritor Argentino) escrito no Brasil.
"Mais do que uma linguagem escrita, são diversas linguagens orais, definidoras das classes sociais das personagens, para melhor compreensão de uma época."
Gosto do trabalho desse autor argentino, autor de obras como: "O Beijo da Mulher Aranha", "Boquinhas Pintadas", "Pubis Angelical", entre outras em sua vasta produção literária.
por Anália Maia

PARA LER COMO UM ESCRITOR - UM GUIA PARA QUEM GOSTA DE LIVROS E PARA QUEM QUER ESCREVE - LOS
PROSE, FRANCINE
JORGE ZAHAR

A autora indica como técnica fundamental a leitura atenta (close reading), pausada, meticulosa do texto para descobrir a real e mais íntima intenção do escritor. Somente desta maneira os detalhes mais preciosos serão notados pelo leitor. Para Prose isso talvez seja corriqueiro, pois como professora de oficinas de escrita e de pós-graduação em MFA (Master of Fine Art's) ela ganha para ensinar utilizando-se destas análises detalhadas.

O livro tem o tom de uma apostila ou manual de oficina literária com muitos trechos de literatura esmiuçados. A autora admite ter escrito o livro para ser usado para tal fim e procura analisar vários aspectos da criação literária, desde a menor estrutura do texto, "Palavras" (capítulo 3), passando por "Frases" (capítulo 4), "Parágrafos" (capítulo 5) até chegar nos estilos de escrita. "Narração", "Personagem", "Diálogo", "Detalhes" e "Gesto" (capítulos 6 ao 9) complementam seus ensinamentos sobre como construir uma história.

Mostra como a maioria das regras ensinadas em oficinas literárias foram quebradas com sucesso pelos grandes escritores. Isso demonstra que escrever é uma experiência pessoal, assim como ler.

O livro não conta nenhum segredo inédito. Tudo o que diz nós já sabemos e a maioria dos livros citados estão disponíveis para leitura em livrarias, sebos ou bibliotecas. Porém o modo simples e claro de analisar o texto revela detalhes que poderíamos ter deixado passar. De brinde traz informações curiosas sobre a vida de escritores famosos como aperitivos aos seus fãs. De que outro modo descobriríamos que Kafka, mestre em iniciar histórias com frases enxutas e marcantes, aprendeu e incorporou esse dom lendo Heirich von Kleist? E que Kleist suicidou-se com a esposa aos 34 anos de idade enquanto faziam um pequenique?A tradução e a qualidade do livro para o português estão em um bom nível, pecando apenas num "quem teria podido pedir" (pg. 15) e num "cismou que ia me sivilizar" (pg. 110) e em um erro de referência (pg. 211) em que o trecho kafkaniano analisado pertence ao livro O Veredito e não ao livro O Processo conforme mencionado. A introdução e acréscimos de Italo Moriconi são pertinentes para "encaixar" o livro americano no rol brasileiro. No final do livro há uma lista de leituras imediatas indicadas pela autora, mas não aparece nenhuma obra em português. Moriconi corrige esta injustiça com uma outra lista somente de livros brasileiros. Assim como todo copo de cerveja puxa outro, a leitura de um livro sempre dá vontade de ler outros e Para ler como um escritor não foge à regra, deixa o leitor louco para conhecer mais sobre Kleist, Tchekhov (que tem o capítulo 10 todo dedicado a ele), Jane Austen, Gogol e Tolstoi.Francine Prose é romancista, crítica, ensaísta e professora de literatura e criação literária há mais de 20 anos em universidades como Harvard, Columbia e Iwoa. Escreveu vários livros, alguns já publicados no Brasil: A vida das musas: Nove mulheres e os artistas que elas inspiraram (2004, Nova Fronteira) e Gula (2004, ARX).

Texto retirado do site: http://www.jefferson.blog.br/2008/05/para-ler-como-um-escritor-de-francine.html

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Juanna e Rodolfo

São os meus melhores amigos.
Dizem que a unanimidade é "burra", mas nesse caso não há como contestar, eles são os nossos maiores amigos; ficam tristes quando estamos tristes, quase surtam com a nossa presença depois do afastamento inevitável do dia-a-dia, buscam a proximidade e o carinho, são fiéis e refletem a nossa personalidade.

Juanna perplexa.

Amo os meus cães.

Rodolfinho moleque.

Rodolfinho e Juanna.

Juanna, em homenagem à Clarisse Lispector em "Perto do Coração Selvagem".

Juanna impaciente com tantas fotos.

Rodolfinho, meu querido menino, me escolheu quando passei, num dia frio em Varginha, pelo lugar em que estava preso. Só, com frio e doente. Levei-o para a casa e hoje está sempre ao meu lado, cuidando dos meus dias. Foi o seu olhar triste que me conquistou num frio dia nas montanhas das Minas Gerais.

Rodolfinho curtindo a preguiça do final de tarde.
Esta é uma singela homenagens aos meus melhores amigos. Agradeço por seus carinhos, suas amizades gratuita e suas presenças pacientes e silenciosas.
Juanna em pose de rainha.
Juanna em pose de rainha.

domingo, 29 de junho de 2008

The Bothersome Man (2006)

"The Bothersome Man” apresenta-se como um filme à la “Alice no País das Maravilhas” mas que no fundo tem como objectivo criticar a sociedade norueguesa contemporânea. Andreas (Trond Fausa Aurvaag) chega a uma nova cidade, recebido numa bomba de gasolina no meio do nada, onde um carro, um apartamento e uma vida o aguardam. No meio da insipidez do seu local de trabalho e dos relacionamentos que aí se processam, Andreas começa uma relação com Anne-Britt (Petronella Barker) e ganha uma ampla vida social. Porém, cedo se entedia e se interessa por uma bela colega de trabalho, Ingeborg (Birgitte Larsen), por quem está disposto a deixar tudo, mas que se revela ainda mais emocionalmente oca do que todos os outros que o rodeiam.

Andreas é desde logo apresentado como um estranho entre os da mesma “espécie”, a partir do momento em que é largado como o único passageiro de um autocarro sinistro, aparentemente sem origem nem destino, como se tivesse caído ali do nada para uma qualquer experiência sociológica. A vastidão e o vazio da paisagem, a ausência de música, apenas o chiar da placa da bomba de gasolina ao vento, faz lembrar “Northfork” dos irmãos Polish, em que o espaço por si só parece ter mais carácter do que qualquer personagem. Deambulando por uma cidade formatada no seio de uma sociedade assustadoramente autómata, vamos conhecendo o seu enfadonho dia-a-dia, em que tenta adoptar os mesmos hábitos dos seus colegas, o bar depois do trabalho, a conversa sobre decoração, o sexo mecânico, os sorrisos plásticos. Mas a sua distinção é sempre evidente, flagrante o seu mal-estar face, por exemplo, à completa e total insensibilidade dos transeuntes perante um suicídio, ou à reacção absolutamente neutra da namorada quando ele lhe diz que a vai abandonar por outra. Porém, o choque do vazio emotivo da sociedade norueguesa que vemos desfilar através dos olhos de Andreas nunca é contrabalançado pelo reconhecimento do drama desta personagem. Ao retratar a apatia das personagens e das situações, o realizador não está mais do que a gerar apatia em nós também.

Ao experenciar o seu desgosto amoroso em relação a Ingeborg, porém, o filme toma um rumo diferente, fazendo o paralelo entre o que Andreas vive e o que pensa/sente. A falta de personalidade e frivolidade daquela são a gota de água para arrasar a sua compostura e o seu mundo certinho é invadido pelo caos da sua mente. Imagens da realidade e imagens do que lhe vai na alma passam a ocorrer numa linha contínua, nunca se revelando onde acabam umas e começam as outras, a metáfora fundindo-se com os acontecimentos do quotidiano.

Depois de simbolicamente atropelado (várias e prolongadas vezes, até nos dar volta ao estômago) por um comboio, Andreas volta para a namorada, (metaforicamente) ensanguentado e despedaçado, e é, mesmo assim, ignorado por ela, apenas preocupada em cumprir os seus compromissos sociais. Do nada, transforma-se numa espécie de Winston Smith do “1984” de George Orwell, buscando obsessivamente o antigo “sabor” das coisas, perdido e rejeitado por um mundo desumano de produção em massa. Aqui temos toques de “Delicatessen” de Jeunet & Caro, onde na aparente pacatez se esconde a morbidez e a bizarria. Andreas segue, então, um misterioso homem que conheceu num bar, Hugo (Per Schaaning) quando este se queixava da falta de sabor do cacau. Juntos lançam-se em busca da origem de uma música que se houve da cave de Hugo, deitando abaixo a parede até encontrarem outra divisão. Conseguem alcançá-la através de uma fenda, um quarto onírico com vista para o mar e bolos acabados de fazer, talvez uma espécie de paraíso, uma espécie de renascimento. Entretanto juntam-se-lhes uma série de idosos do bairro, também eles aparentemente em busca de sensações esquecidas. Mas o barulho, porém, alerta a vizinhança que chama as autoridades e quando Andreas está mesmo a alcançar o manjar dos deuses é arrebatado de volta para a realidade e expulso por pessoas que, apesar de claramente o desprezarem, se lhe dirigem com o tal sorriso plástico, bem como o chefe quando lhe diz que ele foi substituído. Banido de uma comunidade simplesmente por não se conformar com o que lhe é oferecido, garantido.

No fundo, trata-se de uma crítica bem forte e escarnecedora de uma sociedade que, não obstante desenvolvida e superior, se tornou de tal forma automática e impessoal que rejeita todos aqueles que não se contentam apenas com a boa qualidade de vida, que esperam sentir algo mais, viver algo mais. Para o bem comum, ninguém é já insubstituível, ninguém pode fazer a diferença, espera-se apenas que as pessoas se cinjam às regras estabelecidas sem outros desejos nem anseios que deveriam ser tão inerentes à condição humana. Se não se cingirem, apenas se descartam porque ninguém é único. A questão da população envelhecida também se coloca. Uma sociedade desenvolvida implica uma esperança de vida acrescida, mas se só se visa a utilidade das pessoas, os idosos são totalmente negligenciados e arrumados porque já não podem ser produtivos a essa sociedade que dispõe de condições para que se viva até essa altura. A aparente incapacidade de ligações afectivas é assustadora.

No entanto, a escolha de veicular esta mensagem de uma maneira tão metafórica e simbólica, que acaba por ser ela própria tão fria, falha em criar empatia com o espectador. O realizador opta por planos estáticos e estáveis, a câmara passiva e fria, talvez porque as imagens e os acontecimentos por si só bastem para chocar qualquer um. Se a primeira parte nos submerge em letargia, a segunda revela-se excessiva e sem nexo, como uma medida desesperada para nos abanar do torpor. Não temos nem a melancolia agri-doce dos irmãos Polish nem a genial esquizofrenia de Jeunet & Caro, temos um filme desequilibrado em que, se não nos conseguirmos reconhecer em Andreas, tudo nos parece absurdo. A crítica social enquanto obra cinematográfica tem limites.

Texto retirado do link:

http://www.fanaticine.net/ineditos_thebothersomeman.htm

domingo, 22 de junho de 2008

Minha Melhor FOTO

continuando a redescoberta do Rio,

No retorno do almoço, após um excelente camarão, acompanhada de ótimos colegas de trabalho, além de pacientes - obrigava-os a parar a todo instante para clicar - passamos na porta de uma antiga igreja, na parte antiga da Cidade do Rio de Janeiro. Não pude resistir, os raios do sol do meio-dia criavam uma barreira de luz na entrada do Templo Cristão.
Para mim, a melhor foto que consegui até agora.
Compartilho com vocês o momento e o orgulho do trabalho.

domingo, 15 de junho de 2008

PIAF - UM HINO AO AMOR

http://www.youtube.com/watch?v=Z9eH0nmy0og

Trecho do filme: Piaf: hino ao amor. 2007 (história da cantora francesa Edith Piaf)Atriz vencedora do Oscar pelo Filme: Marion Coutillard Paroles : Michel VAUCAIREMusique : Charles DUMONT(c) 1961 ditions Eddie Barclay droits trasnfrs aux ditions SEMI.Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rienNi le bien qu'on m'a faitNi le mal, tout a m'est bien gal !Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rienJ'ai pay, balay, oubliJe me fous du pass !Avec mes souvenirsJ'ai allum le feuMes chagrins, mes plaisirsJe n'ai plus besoin d'eux !Balays mes amoursEt tous leurs trmolosBalays pour toujoursJe repars zro...Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rienNi le bien qu'on m'a faitNi le mal, tout a m'est bien gal !Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rien...Car ma vie, car mes joiesAujourd'hui, a commence avec toi ! Adicionado: 19:07(26 minutos atrás) Duração: 03:10 Ver esse vídeo no YouTube

Non, Je Ne Regrette Rien
Edith Piaf
Composição: Michel Vaucaire / Charles Dumont


Non!

Rien de rien...

Non !

Je ne regrette rien

Ni le bien

Qu’on m’a fait,

Ni le mal,

Tout ça m’est bien égal !

Non!

Rien de rien...

Non !

C’est payé,

Balayé,

Oublié,

Je me fous du passé !

Avec me souvenirs

J’ai allumé le feu,

Mes chagrins, mes plaisirs,

Je n’ai plus besoin d’eux !

Balayé les amours,

Avec leurs trémolos,

Balayés pour toujours

Je repars à zéro...Non!

Rien de rien...

Non !

Je ne regrette rien

Ni le bien

Qu’on m’a fait,

Ni le mal,

Tout ça m’est bien égal !

Non!

Rien de rien...

Non !

Car ma vie,

Car mes joies,

Aujourd’hui,

Ça commence avec toi !

Esta é a Edith Piaf verdadeira, a extraordinária cantora francesa.

http://www.orkut.com.br/FavoriteVideoView.aspx?uid=5700416025827632035&ad=1213541774

Edith Piaf - Non, Je ne regrette rien ( Highest Quality ) Edith Piaf - Non, Je ne regrette rien ( Highest Quality )a truly brilliant song Adicionado: 18:56(41 minutos atrás) Duração: 02:22 Ver esse vídeo no YouTube

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

por Anália Maia

Markus Zusak surpreende, não só pelo ineditismo, mas pelo lirismo incontestável de sua narrativa.

Em meio ao caos de uma Alemanha sob o poder Nazista, em um bairro do subúrbio de Munique, na Rua Himmel, uma menina tem sua leitura de Mundo efetuada pelas palavras. Quando chega a casa da família Hubermman, Liesel não sabia ler, apesar da idade em que outras crianças já dominavam a leitura. Com a ajuda do pai (por adoção, tocador de acordeon) a menina aprende as Letras, decora as palavras, rouba livros (seu único prazer verdadeiro) e transforma a leitura em momentos de calma (para os que estavam nos abrigos esperando as bombas cairem), para a mãe que perdeu um filho na guerra e outro pelo suicídio, para o judeu abandonado no porão escuro e úmido de sua casa.
Zusak faz de sua obra uma ode à palavra, dá-lhe materialidade e poder. A narradora é a Morte, que logo nas primeiras páginas avisa: "Você vai morrer." Apesar da observação óbvia, muitas vezes nos esquecemos desse pequeno detalhe. A narradora se confunde com a personagem título. Algumas vezes, no decorrer da leitura, nos distanciamos da realidade narrativa e viajamos no lirismo da morte e de Liesel. " UMA PEQUENA TEORIA - As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa. [...] Amarelos céreos, azuis borrigados de nuvens. Escuridões enevoadas. No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los", diz a narradora em uma de suas inúmeras digressões.

Minha leitura foi rápida demais, senti um grande pesar ao ler, na última página, a última linha da narradora: "A ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA - Os seres humanos me assombram." E foi nesse momento que me identifiquei com a nobre Senhora. Respondi em voz alta: a mim também. Como o nectar almejado e finalmente alcançado, tentei saborear cada parágrafo, cada palavra, mas a leitura terminou, com a frase inesquecível da Morte.
Suzak me surpreendeu com a delicadeza poética com que tratou da pior época da história do povo Alemão. As atrocidades nazistas, as dificuldades do povo pobre e abandonado, dos bombardeios que tudo destruiram, das inúmeros mortes que ocorreram no decorrer da narrativa, dando à Senhora Morte um trabalho excessivo, cansando-a até à exaustão.
Todos os personagens são importantes, em todos sentimos a proximidade do conhecimento humano, identificamos, em cada um deles, um conhecido, um amigo ou um parente. Mas alguns me tocaram particularmente: o judeu Max, escondido no porão do pai de Liesel, sua relação com a menina que roubava livros é especialmente poética. O lírismo dessa amizade transborda das páginas dessa maravilhosa obra literária.
Preso no porão, sem ver a luz do dia, sem poder olhar o céu, Max aproveitava os momentos em que o povo ia para os abrigos contra bombas para olhar o céu. Arriscava a vida pelo momento sublime de ver e sentir as cores das nuvens, a brisa azul que lhe tocava a face encovada pela fome e pelo medo.
Mais uma digressão - da narradora ou de Liesel? - "UMA IDÉIA BONITA - Uma roubava livros. O outro roubava o céu." Quando Max ficou doente, a menina que roubava livros, todos os dias, trazia algum presente para ele, que apesar de inconsciente, deveria gostar da atenção daquela criança alemã. "uma fita, uma pinha, um botão, uma pedra, uma pena, dois jornais, um invólucro de bala, uma nuvem [...] como se dá a alguém um pedaço de céu? [...] Decore-a. Depois, escreva-a para ele." disse-lhe o pai, um lindo poeta.

Assim viviam aquelas crianças, no medo, em meio a bombardeios, convivendo com a morte. E em tudo isso encontravam alegria e momentos de amor e amizade. E o poético sempre presente.

O livro, de 500 páginas, é encantador. Gostaria de continuar escrevendo, transmitir todo o sentir que ele me despertou, dividir com vocês as inferências, as mudanças pelas quais passei, nesta leitura prazerosa e bela. Mas não posso, o que posso, e devo, é indicar a leitura desta obra magnifica. De uma beleza delicada, que, num mundo tão individualista, frio e indiferente no qual estamos vivendo, nos deixa o sabor de uma humanidade profunda, de seres que erram, que pecam, mas que possuem o amor incondicional, que são solidários com a dor do outro, e que não perderam a capacidade de indignação.
Poderia escrever por muitas páginas ainda, mas vou parar por aqui. Sei que muitos de nós não possuem muita paciência para ler, estão acostumados com as informações instantaneas das imagens, se perderam das palavras. Palavras que para Liesel eram a própria vida, a tecetura de sua vida era efetuada pelas Palavras que tanto amava e odiava, como ela mesma diz: "[...] Odiei as palavras e as amei, e espero tê-las usado direito."

sexta-feira, 13 de junho de 2008

SEXTA 13 NO RIO DE JANEIRO

Centro da cidade do Rio de Janeiro na hora do almoço. Caos de vendedores, camelôs, gente comprando, restaurantes lotados, desempregados entregando filipetas que anunciam empréstimos fáceis, dinheiro a qualquer hora. Ruas imundas, lixo de propaganda, odor de urina e dejetos de todos os tipos, agredindo, ferindo minhas narinas. Momento caótico da hora do almoço. Comida ruim, gente ruim, cheiro ruim, poluição atmosférica e visual. Um horror!
Em meio a todo esse caos surgem elementos mágicos, saídos do imaginário infantil e, porque não, do adulto também. Homens estátuas vivas, garotos fantasiados em cima de enormes pernas-de-pau, música, artistas que pintam na calçada, cercados de gente que não tem o que fazer ou estão esperando a hora de almoço acabar para voltar ao trabalho. Gente que gosta e gente que não gosta, mas tem curiosidade.
Centro da Cidade

Eu e minha máquina fotográfica olhamos e vemos tudo, cada sorriso, cada gesto, o olhar sonhador dos artistas. Ah! Os artistas. Eles fazem valer à pena. Desprendimento, paixão, generosidade exagerada, própria dos sonhadores, irremediáveis na fuga da realidade.

Minha imaginação fotografa, a câmera clica constantemente, esqueço o risco do assalto, estou no centro da cidade do Rio de Janeiro. Só consigo ver o menino prateado, estátua viva de olhar meigo e doce. Será interpretação teatral? Será estudante? Tão jovem, lindo, gestos lentos e harmoniosos hipnotizam, nos levam ao país de Alice, sonhadora e abnegada Alice de todos os países. Meu sorriso aflora impunemente, sem controle, nossos olhares se cruzam, o menino e a mulher madura, sofrida, mas que insiste em sonhar. Fotografo uma, duas, várias vezes. Deixo algumas moedas e recebo uma pequenina rosa, minúscula, linda, que agora descansa na tela do meu computador.

Ando um pouco mais e encontro um punhado de gente, pernas jeans, terno e gravata, saias, saiões (saias compridas e não erva-da-fortuna) e saias minúsculas enfeitadas de pernas torneadas e morenas. Tímida, com a máquina em punho clico diversas vezes, sem que o artista perceba, até que num repente transformo minha atitude invasora na atração principal, roubo a cena do artista. Discretamente me afasto, com passos rápidos e determinados, em direção ao meu destino, o escritório.


Mais alguns passos, entre esbarrões malcriados, faces contraídas e preocupadas, gente passando por cima de gente, invisível sigo meu caminho. Chego ao camelódromo, mercadorias de todos os tipos, pessoas de todos os estilos, andando de um lado ao outro, falando ao mesmo tempo. A Igreja centenária impotente em sua potencia histórica tudo assiste; os homens sanduíche, os rapazes em pernas-de-pau, os palhaços de megafones, loucura na necessidade de chamar à atenção o consumidor. Mais uma vez fotografo. Tenho que sair às pressas. Descubro então que sou invisível apenas até pegar a máquina fotográfica, a partir de então sou totalmente visível, represento ameaça, e corro risco iminente de sofrer represálias.


Desisto, com o pouco material que disponho vou embora. Passo o crachá na catraca, subo até o 9º, andar, sento-me na minha baia e escrevo este texto. Não posso esperar chegar a casa, emoção recente não pode esperar.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

ÚLTIMAS FOTOS

A Candelária,
A CANDELÁRIA, palco de eventos históricos. Morte, clamor do povo por liberdade nos anos de ferro. A principal Igreja do Rio de Janeiro.

O entardecer,
O ENTARDECER, volta pra casa depois de um dia de trabalho. Pessoas passam, engarrafamento, olhar perdido entre prédios na busca do céu.

Um cantinho,
UM CANTINHO um violão, muita calma e essa paixão.