sábado, 26 de julho de 2008

AS BRASAS - Sàndor Màrai

"[...] Quer que lhe diga?...
'
A gente vai envelhecendo aos poucos: numa primeira fase, atenua-se a vontade de viver e de ver nossos semelhantes. Vai prevalecendo o sentido da realidade, vai se esclarecendo o significado das coisas, você acha que os acontecimentos se repetem monótona e fastidiosamente. Isso também é um sinal de velhice. Finalmente, você percebe que um corpo é apenas um corpo e que os homens, pouco importa o que façam, são apenas criaturas mortais. Depois, seu corpo envelhece, não todo de uma vez, é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração.
Vai
A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou. Já sabe exatamente o que o dia apresentará a seus olhos: a primavera ou o inverno, os cenários habituais, as condições atmosféricas, a ordem dos fatos.
Nada de surpreendente pode acontecer:
Nada de surpreendente pode acontecer: não o surpreendem nem sequer os fatos inesperados, insólitos ou horripilantes, porque você conhece todas as probalidades, já previu tudo e não espera mais nada, nem para o bem nem para o mal... e esta é a verdadeira velhice. E no entanto, alguma coisa ainda vive em seu coração, uma lembrança, uma vaga e nebulosa esperança, há alguém que gostaria de ver, há algo que ainda gostaria de dizer ou saber. Um dia, você tem absoluta certeza, chegará esse momento, e então, de repente, saber e enfrentar a verdade já não lhe parecerá tremendamente importante como imaginara durante os anos de espera. O homem compreende o mundo um pouco de cada vez, e depois morre." (p.150)

domingo, 20 de julho de 2008

A 25a.HORA

por Anália Maia


Tive uma infância solitária.

Os motivos não os conheço, mas desde a Escola Primária meus companheiros de aula me rejeitavam, não escondiam o desprezo que sentiam. Talvez seja meu sentimento internalizado de rejeição, ou minha arrogância em permanecer humana. Creio que já me acostumei, mas a sensação de inadaptabilidade permanece em mim. Não importa, já não necessito da aprovação social.

Desde então tenho sempre ao meu lado um verdadeiro amigo. O amor intenso e cheio de gratidão que sinto é retribuído por uma fonte inesgotável de prazer. À minha solitária existência é oferecida a beleza das cores, a alegria do pulsar ritmado da paixão. Passados os anos ainda o tenho ao meu lado; disponível, aberto, cheio de aventuras e, sobretudo, de ensinamentos que me alimentam e amadurecem o espírito.


Cada livro que leio me transforma um pouco. Alguns são inócuos, mas não de todo porque me divertem, outros são agradáveis, fornecem combustível para continuar vivendo, outros, ainda, transformam, levam-me às reflexões profundas donde emirjo amadurecida, endurecida, pronta para novas chibatadas. Consciente da minha solidão, mas sem viver na solidão. Os livros não me permitem ficar só. “[...] – Eu sou escritor – disse Traian – Para mim, um escritor é um domador. Quando se mostra aos seres humanos o Belo, isto é, a Verdade, eles amansam. [...]” (p. 260) “[...] – Eu sou poeta, George – disse Traian – Possuo um sentido que os outros não têm e que me permite entrever o futuro. O poeta é um profeta. [...] Tenho que gritar aos quatro ventos, mesmo que o grito não agrade.[...]”

Assim, os escritores vão construindo minha existência, forjando o metal disforme da sensibilidade no mais puro ouro jamais visto – pois que oculto – pelo homem. Isso é alquimia. São, portanto, alquimistas, os escritores.

Há anos passados, na minha juventude, li a obra de VIRGIL GHEORGIU “A 25º. Hora”. Gostei tanto que por algum tempo serviu-me de parâmetro para a leitura do Mundo. No entusiasmo e deslumbramento de minha juventude não pude ir além das mensagens mais evidentes, que se transformaram em slogan para a minha geração.

Hoje terminei a nova leitura do livro de Virgil. Fui tomada de incrível surpresa. Não só por sua atualidade aos tempos hoje vividos (a trama se dá nos primeiros anos do surgimento da Civilização Técnica Ocidental – nos anos 40 do século XX), onde: “[...] O homem por reduzido a uma única das suas dimensões: a dimensão social. Foi transformado em Cidadão, que já não é sinônimo da dimensão de homem. [...]” (p.382)

O sentir perdeu espaço para a estatística. A racionalidade é hoje, formada pela máquina da mídia (4º. Poder) que leva o homem a pensar em bloco, como parte de uma categoria. Essas categorias são identificadas pelo Ibope na programação das televisões. É desintegração do homem individual, que fica à margem percentual dos que “não sabem” ou “não querem opinar”, “[...] e tornar-se-á o riso de toda a gente se quiser levar uma existência individual.[...]” (p.48) Um Ser anti-social , maior pecado para um cidadão do século XXI. “[...] Essa sociedade só conhece algumas dimensões do indivíduo. O homem integral individualmente tomado já não existe para eles.[...]” (p.243)

Certa vez um amigo querido afirmou que sou apaixonada demais, tudo que vivo é intenso, mergulho com paixão nas coisas e por esse motivo não consigo manter o foco, realizar algo importante na Civilização Técnica Ocidental. É verdade, fiquei “em cima do muro”, sobrevivendo da máquina social e me alimentando da existência espiritual. Não me arrependo, pelo menos sobrevivi com o espírito livre.

Vou terminar (pois se continuar jamais poderei encerrar) com o texto em que Nora West, judia romena, rejeita o pedido de casamento do Tenente Lewis, responsável pelo Campo de Concentração Americano na Alemanha pós Hitler. Faço de suas palavras (na íntegra) as minhas, para o Mundo e para aqueles que amo da forma descrita por Nora:

“[...] – Ouça, Sr. Lewis! – disse Nora. – Depois de ter ouvido as declarações de amor de Petrarca, Goethe, Lord Byron, Púchkin; depois de ter ouvido Traian Koruga (seu marido morto no campo de concentração americano) falar-me de amor; depois de ter ouvido as canções dos trovadores e de os ter visto de joelhos diante de mim, como de uma rainha; depois de ter visto matarem-se por minha causa reis e cavaleiros; depois de ter falado de amor com Valéry, Rilke, D’Annunzio, Eliot; como poderia eu tomar a sério essa proposta de casamento que o senhor me atira à cara ao mesmo tempo que o fumo do seu cigarro? [...]”
“[...] – O amor é uma paixão, Sr. Lewis – disse ela – já deve ter ouvido dizer isso, ou, pelo menos, leu-o em qualquer parte. [...] O amor, a suprema paixão, só pode existir numa sociedade que ache que cada ser humano é insubstituível e único. A sociedade a que senhor pertence crê, pelo contrário, que cada homem é perfeitamente substituível.



VIRGIL GHEORGIU nasceu em 1916 na Roménia e faleceu em 1992 em Paris. Estudou em colégios militares romenos, depois na Faculdade de Letras de Bucareste, depois Teologia, na Alemanha. Após a ocupação da Roménia pela União Soviética, em 1944, instalou-se em França onde foi ordenado padre da Igreja Ortodoxa em 1963 e posteriormente patriarca em 1971. Escreveu mais de quarenta livros, entre romances e ensaios.

domingo, 13 de julho de 2008

NÃO ESTOU LÁ

por Angélica Bito

Assim como no excelente Velvet Goldmine (1998), o diretor Todd Haynes inspira em acontecimentos de uma lendária figura da música para traçar um filme totalmente único. Se no filme de 1998, as inspirações foram David Bowie e Iggy Pop, em Não Estou Lá, o cantor folk norte-americano Bob Dylan e suas experiências servem base para a criação de um roteiro.

Inspirado pelas músicas e muitas vidas de Bob Dylan, como explica um letreiro logo no início do longa, Não Estou Lá (também nome de uma música do cantor) traz várias histórias de personagens que vivem passagens da vida de Dylan. Atores do naipe de Christian Bale, Cate Blanchett, Richard Gere, Heath Ledger, Charlotte Gainsbourg e Julianne Moore embarcaram neste ousado projeto de Haynes interpretando as muitas faces e personalidades que envolvem a biografia do cantor.

Ao mesmo tempo em que se inspira por passagens lendárias na vida do cantor – como quando ele apresentou a maconha aos Beatles, que fumaram a erva pela primeira vez acompanhados pelo cantor em visita à Inglaterra -, Não Estou Lá desenvolve histórias e personalidades a cada um dos personagens também tendo como base as canções de Dylan. Todas as histórias são interessantíssimas de serem acompanhadas e são intercaladas de uma forma harmoniosa. Mas, sem sombra de dúvidas, a mais interessante é a de Jude graças à atuação memorável de Cate Blanchett, que encarna o cantor no auge de sua popularidade, durante os anos 60. Ela é capaz de representar muito bem essa dualidade encontrada no próprio artista que, ao mesmo tempo em que se tornava cada vez mais popular, era acusado de mudar sua arte para vender mais discos.


Como não poderia deixar de ser, a trilha sonora de Não Estou Lá é genial. Além de ser composta por belas canções de Dylan, ainda traz versões de suas músicas feitas por artistas como Stephen Malkmus, ex-vocalista da banda indie Pavement; Sonic Youth, cantando a música que dá nome ao filme; Yoa La Tengo; Sufjan Stevens; a atriz Charlotte Gainsbourg fazendo dueto com a banda Calexico; Antony And The Johnstons interpretando uma linda versão de Knocking On Heaven’s Door durante os créditos finais; Jeff Tweedy (vocalista do Wilco) e Cat Power. Tenho certeza que somente este parágrafo convencerá muitos a se abalarem até o cinema.

Ao mesmo tempo em que Bob Dylan é considerado não somente um cantor, mas principalmente um poeta, um trovador norte-americano, Não Estou Lá é mais do que uma cinebiografia, sendo totalmente diferente dos filmes do gênero produzidos a rodo atualmente por Hollywood. Não Estou Lá tem inspiração na vida real de Dylan, mas aparece mais como um grande rompante de inspiração de Haynes. Entrecortado, recortado e com diálogos geniais, o longa pode ser visto como uma versão cinematográfica de uma canção de Dylan.

sábado, 12 de julho de 2008

SANGUE DE AMOR CORRESPONDIDO


A leitura dessa obra de Manuel Puig é um desafio para qualquer leitor, mesmo para o leitor escritor. Nele será impossível aplicar as inferências realizadas pela leitura de Francine Prose "Para Ler como Um Escritor". Nesse caso, de Puig, é necessário ler como "fratura exposta", como Ser livre de preconceitos, principalmente o linguístico, tão comum entre os "intelectuais".

Pausa para me desculpar pelo excesso de aspas. Espero que compeendam.

Mas voltando a Puig, a obra é um mistério a ser desvendado pelo leitor, que é arrebatado pela curiosidade desde as primeiras linhas.

São 202 páginas de puro delírio, onde o dispositivo de defesa do narrador viaja por fantasias eróticas para fugir da realidade de sua vida insípida e desconexa. A narrativa é desconexa, incrível. Puig trama a sua história pelo caminho inverso do apontado por Prose; a liberdade criativa se faz sentir em cada palavra, na pontuação, nos parágrafos, e, até mesmo, na personagem narradora. Apesar da narrativa ser em terceira pessoa, quem nos conta sua história é o próprio Josemar, portanto, personagem narrador.

Mas não esperem uma história linear, o livro é um desabafo. A fuga de um brasileiro típico da realidade brasileira. Da "roça" vai morar em Guarulhos e depois vai para o Rio de Janeiro na busca de melhores oportunidades na vida. Josemar é pedreiro "formado" e eletricista. A época é apresentada na linguagem - escrita e falada - por Josemar e seus antagonistas.
O Leitor se torna co-autor; deduz, reflete, "dá ré" - retorna a leitura de páginas já lidas - compara trechos. Ao mesmo tempo sente: o perfume das noites de lua, o aroma do sexo feito com prazer e vontade, o azedo da fome, o amargo da solidão.
É o primeiro romance de Manuel Puig (escritor Argentino) escrito no Brasil.
"Mais do que uma linguagem escrita, são diversas linguagens orais, definidoras das classes sociais das personagens, para melhor compreensão de uma época."
Gosto do trabalho desse autor argentino, autor de obras como: "O Beijo da Mulher Aranha", "Boquinhas Pintadas", "Pubis Angelical", entre outras em sua vasta produção literária.
por Anália Maia

PARA LER COMO UM ESCRITOR - UM GUIA PARA QUEM GOSTA DE LIVROS E PARA QUEM QUER ESCREVE - LOS
PROSE, FRANCINE
JORGE ZAHAR

A autora indica como técnica fundamental a leitura atenta (close reading), pausada, meticulosa do texto para descobrir a real e mais íntima intenção do escritor. Somente desta maneira os detalhes mais preciosos serão notados pelo leitor. Para Prose isso talvez seja corriqueiro, pois como professora de oficinas de escrita e de pós-graduação em MFA (Master of Fine Art's) ela ganha para ensinar utilizando-se destas análises detalhadas.

O livro tem o tom de uma apostila ou manual de oficina literária com muitos trechos de literatura esmiuçados. A autora admite ter escrito o livro para ser usado para tal fim e procura analisar vários aspectos da criação literária, desde a menor estrutura do texto, "Palavras" (capítulo 3), passando por "Frases" (capítulo 4), "Parágrafos" (capítulo 5) até chegar nos estilos de escrita. "Narração", "Personagem", "Diálogo", "Detalhes" e "Gesto" (capítulos 6 ao 9) complementam seus ensinamentos sobre como construir uma história.

Mostra como a maioria das regras ensinadas em oficinas literárias foram quebradas com sucesso pelos grandes escritores. Isso demonstra que escrever é uma experiência pessoal, assim como ler.

O livro não conta nenhum segredo inédito. Tudo o que diz nós já sabemos e a maioria dos livros citados estão disponíveis para leitura em livrarias, sebos ou bibliotecas. Porém o modo simples e claro de analisar o texto revela detalhes que poderíamos ter deixado passar. De brinde traz informações curiosas sobre a vida de escritores famosos como aperitivos aos seus fãs. De que outro modo descobriríamos que Kafka, mestre em iniciar histórias com frases enxutas e marcantes, aprendeu e incorporou esse dom lendo Heirich von Kleist? E que Kleist suicidou-se com a esposa aos 34 anos de idade enquanto faziam um pequenique?A tradução e a qualidade do livro para o português estão em um bom nível, pecando apenas num "quem teria podido pedir" (pg. 15) e num "cismou que ia me sivilizar" (pg. 110) e em um erro de referência (pg. 211) em que o trecho kafkaniano analisado pertence ao livro O Veredito e não ao livro O Processo conforme mencionado. A introdução e acréscimos de Italo Moriconi são pertinentes para "encaixar" o livro americano no rol brasileiro. No final do livro há uma lista de leituras imediatas indicadas pela autora, mas não aparece nenhuma obra em português. Moriconi corrige esta injustiça com uma outra lista somente de livros brasileiros. Assim como todo copo de cerveja puxa outro, a leitura de um livro sempre dá vontade de ler outros e Para ler como um escritor não foge à regra, deixa o leitor louco para conhecer mais sobre Kleist, Tchekhov (que tem o capítulo 10 todo dedicado a ele), Jane Austen, Gogol e Tolstoi.Francine Prose é romancista, crítica, ensaísta e professora de literatura e criação literária há mais de 20 anos em universidades como Harvard, Columbia e Iwoa. Escreveu vários livros, alguns já publicados no Brasil: A vida das musas: Nove mulheres e os artistas que elas inspiraram (2004, Nova Fronteira) e Gula (2004, ARX).

Texto retirado do site: http://www.jefferson.blog.br/2008/05/para-ler-como-um-escritor-de-francine.html

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Juanna e Rodolfo

São os meus melhores amigos.
Dizem que a unanimidade é "burra", mas nesse caso não há como contestar, eles são os nossos maiores amigos; ficam tristes quando estamos tristes, quase surtam com a nossa presença depois do afastamento inevitável do dia-a-dia, buscam a proximidade e o carinho, são fiéis e refletem a nossa personalidade.

Juanna perplexa.

Amo os meus cães.

Rodolfinho moleque.

Rodolfinho e Juanna.

Juanna, em homenagem à Clarisse Lispector em "Perto do Coração Selvagem".

Juanna impaciente com tantas fotos.

Rodolfinho, meu querido menino, me escolheu quando passei, num dia frio em Varginha, pelo lugar em que estava preso. Só, com frio e doente. Levei-o para a casa e hoje está sempre ao meu lado, cuidando dos meus dias. Foi o seu olhar triste que me conquistou num frio dia nas montanhas das Minas Gerais.

Rodolfinho curtindo a preguiça do final de tarde.
Esta é uma singela homenagens aos meus melhores amigos. Agradeço por seus carinhos, suas amizades gratuita e suas presenças pacientes e silenciosas.
Juanna em pose de rainha.
Juanna em pose de rainha.

domingo, 29 de junho de 2008

The Bothersome Man (2006)

"The Bothersome Man” apresenta-se como um filme à la “Alice no País das Maravilhas” mas que no fundo tem como objectivo criticar a sociedade norueguesa contemporânea. Andreas (Trond Fausa Aurvaag) chega a uma nova cidade, recebido numa bomba de gasolina no meio do nada, onde um carro, um apartamento e uma vida o aguardam. No meio da insipidez do seu local de trabalho e dos relacionamentos que aí se processam, Andreas começa uma relação com Anne-Britt (Petronella Barker) e ganha uma ampla vida social. Porém, cedo se entedia e se interessa por uma bela colega de trabalho, Ingeborg (Birgitte Larsen), por quem está disposto a deixar tudo, mas que se revela ainda mais emocionalmente oca do que todos os outros que o rodeiam.

Andreas é desde logo apresentado como um estranho entre os da mesma “espécie”, a partir do momento em que é largado como o único passageiro de um autocarro sinistro, aparentemente sem origem nem destino, como se tivesse caído ali do nada para uma qualquer experiência sociológica. A vastidão e o vazio da paisagem, a ausência de música, apenas o chiar da placa da bomba de gasolina ao vento, faz lembrar “Northfork” dos irmãos Polish, em que o espaço por si só parece ter mais carácter do que qualquer personagem. Deambulando por uma cidade formatada no seio de uma sociedade assustadoramente autómata, vamos conhecendo o seu enfadonho dia-a-dia, em que tenta adoptar os mesmos hábitos dos seus colegas, o bar depois do trabalho, a conversa sobre decoração, o sexo mecânico, os sorrisos plásticos. Mas a sua distinção é sempre evidente, flagrante o seu mal-estar face, por exemplo, à completa e total insensibilidade dos transeuntes perante um suicídio, ou à reacção absolutamente neutra da namorada quando ele lhe diz que a vai abandonar por outra. Porém, o choque do vazio emotivo da sociedade norueguesa que vemos desfilar através dos olhos de Andreas nunca é contrabalançado pelo reconhecimento do drama desta personagem. Ao retratar a apatia das personagens e das situações, o realizador não está mais do que a gerar apatia em nós também.

Ao experenciar o seu desgosto amoroso em relação a Ingeborg, porém, o filme toma um rumo diferente, fazendo o paralelo entre o que Andreas vive e o que pensa/sente. A falta de personalidade e frivolidade daquela são a gota de água para arrasar a sua compostura e o seu mundo certinho é invadido pelo caos da sua mente. Imagens da realidade e imagens do que lhe vai na alma passam a ocorrer numa linha contínua, nunca se revelando onde acabam umas e começam as outras, a metáfora fundindo-se com os acontecimentos do quotidiano.

Depois de simbolicamente atropelado (várias e prolongadas vezes, até nos dar volta ao estômago) por um comboio, Andreas volta para a namorada, (metaforicamente) ensanguentado e despedaçado, e é, mesmo assim, ignorado por ela, apenas preocupada em cumprir os seus compromissos sociais. Do nada, transforma-se numa espécie de Winston Smith do “1984” de George Orwell, buscando obsessivamente o antigo “sabor” das coisas, perdido e rejeitado por um mundo desumano de produção em massa. Aqui temos toques de “Delicatessen” de Jeunet & Caro, onde na aparente pacatez se esconde a morbidez e a bizarria. Andreas segue, então, um misterioso homem que conheceu num bar, Hugo (Per Schaaning) quando este se queixava da falta de sabor do cacau. Juntos lançam-se em busca da origem de uma música que se houve da cave de Hugo, deitando abaixo a parede até encontrarem outra divisão. Conseguem alcançá-la através de uma fenda, um quarto onírico com vista para o mar e bolos acabados de fazer, talvez uma espécie de paraíso, uma espécie de renascimento. Entretanto juntam-se-lhes uma série de idosos do bairro, também eles aparentemente em busca de sensações esquecidas. Mas o barulho, porém, alerta a vizinhança que chama as autoridades e quando Andreas está mesmo a alcançar o manjar dos deuses é arrebatado de volta para a realidade e expulso por pessoas que, apesar de claramente o desprezarem, se lhe dirigem com o tal sorriso plástico, bem como o chefe quando lhe diz que ele foi substituído. Banido de uma comunidade simplesmente por não se conformar com o que lhe é oferecido, garantido.

No fundo, trata-se de uma crítica bem forte e escarnecedora de uma sociedade que, não obstante desenvolvida e superior, se tornou de tal forma automática e impessoal que rejeita todos aqueles que não se contentam apenas com a boa qualidade de vida, que esperam sentir algo mais, viver algo mais. Para o bem comum, ninguém é já insubstituível, ninguém pode fazer a diferença, espera-se apenas que as pessoas se cinjam às regras estabelecidas sem outros desejos nem anseios que deveriam ser tão inerentes à condição humana. Se não se cingirem, apenas se descartam porque ninguém é único. A questão da população envelhecida também se coloca. Uma sociedade desenvolvida implica uma esperança de vida acrescida, mas se só se visa a utilidade das pessoas, os idosos são totalmente negligenciados e arrumados porque já não podem ser produtivos a essa sociedade que dispõe de condições para que se viva até essa altura. A aparente incapacidade de ligações afectivas é assustadora.

No entanto, a escolha de veicular esta mensagem de uma maneira tão metafórica e simbólica, que acaba por ser ela própria tão fria, falha em criar empatia com o espectador. O realizador opta por planos estáticos e estáveis, a câmara passiva e fria, talvez porque as imagens e os acontecimentos por si só bastem para chocar qualquer um. Se a primeira parte nos submerge em letargia, a segunda revela-se excessiva e sem nexo, como uma medida desesperada para nos abanar do torpor. Não temos nem a melancolia agri-doce dos irmãos Polish nem a genial esquizofrenia de Jeunet & Caro, temos um filme desequilibrado em que, se não nos conseguirmos reconhecer em Andreas, tudo nos parece absurdo. A crítica social enquanto obra cinematográfica tem limites.

Texto retirado do link:

http://www.fanaticine.net/ineditos_thebothersomeman.htm

domingo, 22 de junho de 2008

Minha Melhor FOTO

continuando a redescoberta do Rio,

No retorno do almoço, após um excelente camarão, acompanhada de ótimos colegas de trabalho, além de pacientes - obrigava-os a parar a todo instante para clicar - passamos na porta de uma antiga igreja, na parte antiga da Cidade do Rio de Janeiro. Não pude resistir, os raios do sol do meio-dia criavam uma barreira de luz na entrada do Templo Cristão.
Para mim, a melhor foto que consegui até agora.
Compartilho com vocês o momento e o orgulho do trabalho.

domingo, 15 de junho de 2008

PIAF - UM HINO AO AMOR

http://www.youtube.com/watch?v=Z9eH0nmy0og

Trecho do filme: Piaf: hino ao amor. 2007 (história da cantora francesa Edith Piaf)Atriz vencedora do Oscar pelo Filme: Marion Coutillard Paroles : Michel VAUCAIREMusique : Charles DUMONT(c) 1961 ditions Eddie Barclay droits trasnfrs aux ditions SEMI.Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rienNi le bien qu'on m'a faitNi le mal, tout a m'est bien gal !Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rienJ'ai pay, balay, oubliJe me fous du pass !Avec mes souvenirsJ'ai allum le feuMes chagrins, mes plaisirsJe n'ai plus besoin d'eux !Balays mes amoursEt tous leurs trmolosBalays pour toujoursJe repars zro...Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rienNi le bien qu'on m'a faitNi le mal, tout a m'est bien gal !Non ! Rien de rien...Non ! Je ne regrette rien...Car ma vie, car mes joiesAujourd'hui, a commence avec toi ! Adicionado: 19:07(26 minutos atrás) Duração: 03:10 Ver esse vídeo no YouTube

Non, Je Ne Regrette Rien
Edith Piaf
Composição: Michel Vaucaire / Charles Dumont


Non!

Rien de rien...

Non !

Je ne regrette rien

Ni le bien

Qu’on m’a fait,

Ni le mal,

Tout ça m’est bien égal !

Non!

Rien de rien...

Non !

C’est payé,

Balayé,

Oublié,

Je me fous du passé !

Avec me souvenirs

J’ai allumé le feu,

Mes chagrins, mes plaisirs,

Je n’ai plus besoin d’eux !

Balayé les amours,

Avec leurs trémolos,

Balayés pour toujours

Je repars à zéro...Non!

Rien de rien...

Non !

Je ne regrette rien

Ni le bien

Qu’on m’a fait,

Ni le mal,

Tout ça m’est bien égal !

Non!

Rien de rien...

Non !

Car ma vie,

Car mes joies,

Aujourd’hui,

Ça commence avec toi !

Esta é a Edith Piaf verdadeira, a extraordinária cantora francesa.

http://www.orkut.com.br/FavoriteVideoView.aspx?uid=5700416025827632035&ad=1213541774

Edith Piaf - Non, Je ne regrette rien ( Highest Quality ) Edith Piaf - Non, Je ne regrette rien ( Highest Quality )a truly brilliant song Adicionado: 18:56(41 minutos atrás) Duração: 02:22 Ver esse vídeo no YouTube

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

por Anália Maia

Markus Zusak surpreende, não só pelo ineditismo, mas pelo lirismo incontestável de sua narrativa.

Em meio ao caos de uma Alemanha sob o poder Nazista, em um bairro do subúrbio de Munique, na Rua Himmel, uma menina tem sua leitura de Mundo efetuada pelas palavras. Quando chega a casa da família Hubermman, Liesel não sabia ler, apesar da idade em que outras crianças já dominavam a leitura. Com a ajuda do pai (por adoção, tocador de acordeon) a menina aprende as Letras, decora as palavras, rouba livros (seu único prazer verdadeiro) e transforma a leitura em momentos de calma (para os que estavam nos abrigos esperando as bombas cairem), para a mãe que perdeu um filho na guerra e outro pelo suicídio, para o judeu abandonado no porão escuro e úmido de sua casa.
Zusak faz de sua obra uma ode à palavra, dá-lhe materialidade e poder. A narradora é a Morte, que logo nas primeiras páginas avisa: "Você vai morrer." Apesar da observação óbvia, muitas vezes nos esquecemos desse pequeno detalhe. A narradora se confunde com a personagem título. Algumas vezes, no decorrer da leitura, nos distanciamos da realidade narrativa e viajamos no lirismo da morte e de Liesel. " UMA PEQUENA TEORIA - As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa. [...] Amarelos céreos, azuis borrigados de nuvens. Escuridões enevoadas. No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los", diz a narradora em uma de suas inúmeras digressões.

Minha leitura foi rápida demais, senti um grande pesar ao ler, na última página, a última linha da narradora: "A ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA - Os seres humanos me assombram." E foi nesse momento que me identifiquei com a nobre Senhora. Respondi em voz alta: a mim também. Como o nectar almejado e finalmente alcançado, tentei saborear cada parágrafo, cada palavra, mas a leitura terminou, com a frase inesquecível da Morte.
Suzak me surpreendeu com a delicadeza poética com que tratou da pior época da história do povo Alemão. As atrocidades nazistas, as dificuldades do povo pobre e abandonado, dos bombardeios que tudo destruiram, das inúmeros mortes que ocorreram no decorrer da narrativa, dando à Senhora Morte um trabalho excessivo, cansando-a até à exaustão.
Todos os personagens são importantes, em todos sentimos a proximidade do conhecimento humano, identificamos, em cada um deles, um conhecido, um amigo ou um parente. Mas alguns me tocaram particularmente: o judeu Max, escondido no porão do pai de Liesel, sua relação com a menina que roubava livros é especialmente poética. O lírismo dessa amizade transborda das páginas dessa maravilhosa obra literária.
Preso no porão, sem ver a luz do dia, sem poder olhar o céu, Max aproveitava os momentos em que o povo ia para os abrigos contra bombas para olhar o céu. Arriscava a vida pelo momento sublime de ver e sentir as cores das nuvens, a brisa azul que lhe tocava a face encovada pela fome e pelo medo.
Mais uma digressão - da narradora ou de Liesel? - "UMA IDÉIA BONITA - Uma roubava livros. O outro roubava o céu." Quando Max ficou doente, a menina que roubava livros, todos os dias, trazia algum presente para ele, que apesar de inconsciente, deveria gostar da atenção daquela criança alemã. "uma fita, uma pinha, um botão, uma pedra, uma pena, dois jornais, um invólucro de bala, uma nuvem [...] como se dá a alguém um pedaço de céu? [...] Decore-a. Depois, escreva-a para ele." disse-lhe o pai, um lindo poeta.

Assim viviam aquelas crianças, no medo, em meio a bombardeios, convivendo com a morte. E em tudo isso encontravam alegria e momentos de amor e amizade. E o poético sempre presente.

O livro, de 500 páginas, é encantador. Gostaria de continuar escrevendo, transmitir todo o sentir que ele me despertou, dividir com vocês as inferências, as mudanças pelas quais passei, nesta leitura prazerosa e bela. Mas não posso, o que posso, e devo, é indicar a leitura desta obra magnifica. De uma beleza delicada, que, num mundo tão individualista, frio e indiferente no qual estamos vivendo, nos deixa o sabor de uma humanidade profunda, de seres que erram, que pecam, mas que possuem o amor incondicional, que são solidários com a dor do outro, e que não perderam a capacidade de indignação.
Poderia escrever por muitas páginas ainda, mas vou parar por aqui. Sei que muitos de nós não possuem muita paciência para ler, estão acostumados com as informações instantaneas das imagens, se perderam das palavras. Palavras que para Liesel eram a própria vida, a tecetura de sua vida era efetuada pelas Palavras que tanto amava e odiava, como ela mesma diz: "[...] Odiei as palavras e as amei, e espero tê-las usado direito."

sexta-feira, 13 de junho de 2008

SEXTA 13 NO RIO DE JANEIRO

Centro da cidade do Rio de Janeiro na hora do almoço. Caos de vendedores, camelôs, gente comprando, restaurantes lotados, desempregados entregando filipetas que anunciam empréstimos fáceis, dinheiro a qualquer hora. Ruas imundas, lixo de propaganda, odor de urina e dejetos de todos os tipos, agredindo, ferindo minhas narinas. Momento caótico da hora do almoço. Comida ruim, gente ruim, cheiro ruim, poluição atmosférica e visual. Um horror!
Em meio a todo esse caos surgem elementos mágicos, saídos do imaginário infantil e, porque não, do adulto também. Homens estátuas vivas, garotos fantasiados em cima de enormes pernas-de-pau, música, artistas que pintam na calçada, cercados de gente que não tem o que fazer ou estão esperando a hora de almoço acabar para voltar ao trabalho. Gente que gosta e gente que não gosta, mas tem curiosidade.
Centro da Cidade

Eu e minha máquina fotográfica olhamos e vemos tudo, cada sorriso, cada gesto, o olhar sonhador dos artistas. Ah! Os artistas. Eles fazem valer à pena. Desprendimento, paixão, generosidade exagerada, própria dos sonhadores, irremediáveis na fuga da realidade.

Minha imaginação fotografa, a câmera clica constantemente, esqueço o risco do assalto, estou no centro da cidade do Rio de Janeiro. Só consigo ver o menino prateado, estátua viva de olhar meigo e doce. Será interpretação teatral? Será estudante? Tão jovem, lindo, gestos lentos e harmoniosos hipnotizam, nos levam ao país de Alice, sonhadora e abnegada Alice de todos os países. Meu sorriso aflora impunemente, sem controle, nossos olhares se cruzam, o menino e a mulher madura, sofrida, mas que insiste em sonhar. Fotografo uma, duas, várias vezes. Deixo algumas moedas e recebo uma pequenina rosa, minúscula, linda, que agora descansa na tela do meu computador.

Ando um pouco mais e encontro um punhado de gente, pernas jeans, terno e gravata, saias, saiões (saias compridas e não erva-da-fortuna) e saias minúsculas enfeitadas de pernas torneadas e morenas. Tímida, com a máquina em punho clico diversas vezes, sem que o artista perceba, até que num repente transformo minha atitude invasora na atração principal, roubo a cena do artista. Discretamente me afasto, com passos rápidos e determinados, em direção ao meu destino, o escritório.


Mais alguns passos, entre esbarrões malcriados, faces contraídas e preocupadas, gente passando por cima de gente, invisível sigo meu caminho. Chego ao camelódromo, mercadorias de todos os tipos, pessoas de todos os estilos, andando de um lado ao outro, falando ao mesmo tempo. A Igreja centenária impotente em sua potencia histórica tudo assiste; os homens sanduíche, os rapazes em pernas-de-pau, os palhaços de megafones, loucura na necessidade de chamar à atenção o consumidor. Mais uma vez fotografo. Tenho que sair às pressas. Descubro então que sou invisível apenas até pegar a máquina fotográfica, a partir de então sou totalmente visível, represento ameaça, e corro risco iminente de sofrer represálias.


Desisto, com o pouco material que disponho vou embora. Passo o crachá na catraca, subo até o 9º, andar, sento-me na minha baia e escrevo este texto. Não posso esperar chegar a casa, emoção recente não pode esperar.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

ÚLTIMAS FOTOS

A Candelária,
A CANDELÁRIA, palco de eventos históricos. Morte, clamor do povo por liberdade nos anos de ferro. A principal Igreja do Rio de Janeiro.

O entardecer,
O ENTARDECER, volta pra casa depois de um dia de trabalho. Pessoas passam, engarrafamento, olhar perdido entre prédios na busca do céu.

Um cantinho,
UM CANTINHO um violão, muita calma e essa paixão.

sábado, 31 de maio de 2008

AQUELES CÃES MALDITOS DE ARQUELAU

por Anália Maia
Descobri um sebo pertinho do meu local de trabalho. Um lugar maravilhoso, que possui um acervo fantástico. Agora, sempre que posso, na hora do almoço dou uma passada lá e saiu carregada de livros. Dá um pouco de trabalho. Como estou interessada em novidades, já que me libertei do compromisso acadêmico da leitura, tenho que ler as orelhas, capas, e, muitas vezes, se houver, o prefácio. Leva algum tempo para identificar as obras que me interessam.
Assim foi com “Aqueles cães malditos de Arquelau”. Pelo título seria difícil identificar a trama, o foco da narrativa. Mas, após passar os olhos pelas partes estratégicas do livro, levei-o para casa, juntamente com outros cinco volumes.

Dos livros adquiridos escolhi “Aqueles cães...” para efetuar a primeira leitura. Não me arrependi, ótima escolha.

Descobri um autor que não conhecia, Isaias Pessotti, um intelectual fabuloso, sensível e de vasto saber que me levou numa viagem fascinante à Itália (Milão) na companhia de personagens incríveis, professores e pesquisadores da Instituição Galilei, voltada para a pesquisa, preservação e administração de livros raros e antigos.

Emílio, o latinista do grupo, narrador, nosso guia pelo mundo universitário e da pesquisa, com humor refinado e muita sensibilidade, descreve com perfeição e detalhes os belíssimos lugarejos que circundam Milão.

Durante a leitura temos erotismo, mistério, verdadeiras aulas de história, teologia e muita informação sobre a nobreza da Itália do século XV.

Os bons livros exigem mais de uma leitura. Com certeza é o acontecerá com esse Pessotti. Na primeira leitura o aspecto que mais me afetou foi a tradução do Commentarium, manuscrito escrito pelo Cardeal Lutércio (nome dado pelo povo simples de Monteferrato – cujo o verdadeiro nome era Ludovico Terzo, que abreviado é LuTerzo, que para Lutércio foi um suspiro do tempo popular). Nele pude reencontrar um autor clássico que sempre me emocionou, principalmente pelas figuras femininas de suas peças. Eurípides, o “Cavalheiro da Paixão”.

O aspecto principal do livro é a tradução que Emílio efetua do original em latim encontrado na Villa onde viveu o Cardeal. O Commentarium constitui a defesa e o resgate do filósofo (destituído do título por Platão e Aristóteles) que cantou a natureza humana em toda a sua crueza, "[...] porque a grande aventura humana já não consiste no desafio ao destino ou aos deuses, ou no morrer por sua pátria, mas na impossível fuga da condição humana. A inevitável marca do humano: a contradição, a irremediável convivência entre a grandeza e a fragilidade, entre a abnegação e a mesquinhez, a coragem e a covardia. Entre o projeto e o acidente. Entre o conhecer e o poder. A sabedoria e a paixão. Eis a grande e sublime tragédia humana. [...]", um documento testemunha da importância do maior poeta clássico da antiguidade.

Pessotti tece o texto apontando as contradições entre o humano e o conhecimento, demonstrando que, ao contrário do entendimento de Aristóteles, a formação do saber científico é fruto da paixão humana.
“Aqueles Cães Malditos de Arquelau” – uma referência à morte trágica de Eurípedes no seu exílio na Macedônia a convite do rei Arquelau – é o romance de estréia de Isaias Pessotti, nascido na cidade de São Bernardo do Campo, formado em filosofia pela USP em 1955, professor e pesquisador de Psicologia. Dedicou-se por muitos anos ao estudo sobre a história da loucura, o mais importante do gênero realizado no Brasil. Pessotti enveredou pela ficção após os 65 anos, idade com que publicou sua primeira obra, à qual seguiram-se O Manuscrito de Mediavilla, em 1995, e A Lua da Verdade, em 1997, todos pela Editora 34.

Dois fatos para mim estão certos: primeiro, efetuarei mais uma leitura do livro e, segundo, comprarei outros da lavra deste maravilhoso autor que acabei de descobrir.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A ILHA DOS CISNES

por Anália Maia
Dizem que ELE escreve certo por linhas tortas. Lugar comum, a frase ou seu conteúdo. Mas tenho que admitir, há momentos em que pensamos que tudo está perdido, nos sentimos injustiçados, ficamos com raiva, magoados e até mesmo com um gostinho de sangue na boca. Necessidade de vingança. Mas nosso dispositivo de defesa - geralmente - é eficiente para que possamos buscar o lado bom da experiência que, a princípio, pode ser traumática.

Na luta para alcançar um objetivo, um sonho, realizar aquilo que acreditamos que é o melhor, que vai alimentar nossa alma, somos derrotados, perdemos o jogo. E agora?

Minha maior paixão é a Literatura, sou leitora desde os nove anos de idade, quando ganhei de meu pai uma coleção composta por cem livrinhos de histórias infantis (os tenho até hoje). Desde então jamais parei de Ler. Até o dia em que resolvi ser professora de Literatura, queria transmitir para outros o prazer que sinto, queria que meus alunos pudessem descobrir este Mundo fantástico, maravilhoso dos Livros.

Mas não fui feliz, com raras exceções (alguns alunos foram motivados e hoje são leitores) minhas tentativas foram inúteis. Fracassei.


Hoje, que já não sou mais professora e retornei à profissão de origem, faço uma descoberta incrível. Na busca da excelência como mediadora da Literatura com meu alunado, abri mão das leituras sem compromisso acadêmico, minha atividade leitora ficou restrita aos clássicos e à literatura científica, buscava obsessivamente as ferramentas que me auxiliariam na missão. Semiótica, Análise do Discurso, Filosofia, Mitologia, as ciências que possibilitam a leitura lúcida, interpretativa.

A Literatura é só prazer, paixão, estranhamento, sorriso nos lábios após fechar a última página. Mas a necessidade de compartilhar permanece viva, este o motivo deste blog.

Infelizmente não poderia postar as impressões de todas as minhas leituras. Algumas vezes sou obrigada a interromper uma leitura face à baixa qualidade da obra. Outras vezes é boa, mas não causa o impacto motivante para comentários.

No entanto, o Livro de Anne Rivers Siddons, "A ilha dos cisnes", da Editora Bertrand Brasil, foi uma dessas experiências que permanecem por muito tempo, substituindo a mais recente, em nossos corações.


A personagem, e narradora, é uma mulher de cinquenta anos, casada, com filhos, que além de cuidar da família, que para ela é sagrada, é voluntária em várias frentes humanitárias. Vê seu mundo desmoronar na traição do marido que pede o divórcio para casar com uma jovem advogada.

Mas seu drama não se restringe à traição, à perda dos filhos que seguem os seus caminhos, à morte da mãe dominadora ou à distancia do amado pai que se isola na loucura senil. O maior drama de Molly é o auto-enfrentamento, é a busca de sua identidade perdida. Para isso se isola de todos e vai morar numa ilha afastada, parada no tempo, onde constrói uma família singular; um velho louco, um homem perneta, uma lésbica doente, um cão abandonado, dois cisnes anormais e uma mulher traída. Alguém vai morrer, ou não, talvez alguém voe para longe, talvez não, o que importa é que o momento é aquele, naquela hora, sob aquele temporal assustador, sob um chalé antigo e simples, eles são a sua família.

Uma leitura instigante com a tradução primorosa de Renée Eve Levié, o livro nos acompanha durante e após terminada sua última página.

Então entendo o favor que me fizeram, me devolveram o maior prazer que tive, tenho e sempre terei... a LEITURA de um bom LIVRO.

domingo, 13 de abril de 2008

O CLUBE DUMAS, Arturo Pérez-Reverte

NOTA em 26/06/2008
Um amigo muito querido, Flávio, me deu a dica do filme:
vale a pena conferir. O Blog está nos meus "Blogs favoritos"
Fiquei fascinada com a leitura da obra de Pérez-Reverte. Numa narrativa instigante e esclarecedora, o autor tece a trama, recheada de suspense, fascínio e lirismo. Aqueles que amam a leitura, que preservam seus livros, que dão prioridade à aquisição de bons autores, vão se apaixonar pela narrativa elaborada de Arturo Pérez-Reverte.

Transcrevo aqui a resenha de Luciana Fátima, que considero excelente para a indicação dessa leitura fantástica.

"Este livro trata da história de dois outros livros. O primeiro, o manuscrito de um capítulo de Os Três Mosqueteiros, escrito pelo próprio Dumas e por um de seus ajudantes, que até tentou – inutilmente – provar que criava as histórias do famoso escritor. O segundo, o Livro das Nove Portas do Reino das Sombras, uma espécie de manual para invocar o diabo, que levou seu impressor – Aristide Torchia – à fogueira, por volta do século XVII, e que ficou perdido durante muito tempo.Qual a relação entre os dois volumes? Aparentemente nenhuma, a não ser por um especialista em livros que tenta investigar a autenticidade de ambos os escritos. Lucas Corso "era um mercenário da bibliofilia, um caçador de livros por conta de outros. Isso inclui os dedos sujos e o verbo fácil, bons reflexos, paciência e muita sorte. Também uma memória prodigiosa, capaz de recordar em que canto poeirento de um sebo dorme aquele exemplar pelo qual pagam uma fortuna. Sua clientela era seleta e reduzida [...]; aristocratas do incunábulo, para os quais pergaminho em lugar de velino, ou três centímetros a mais da margem da página, supõem milhares de dólares. Chacais de Gutenberg, piranhas das feiras de antigüidades, sanguessugas de leilões, são capazes de vender a mãe por uma edição príncipe."Ocorre que durante a investigação, muita coisa estranha começa a acontecer. Pessoas inocentes são assassinadas, e até uma (segundo ela) enviada do diabo cruza o caminho de Corso, para seduzi-lo e protegê-lo. Tudo fica ainda mais complicado quando todos começam a agir como se estivessem interpretando papéis do romance Os Três Mosqueteiros. Esta perigosa aventura, de tão exóticas personagens, leva o leitor para o mundo dos livros raros e das loucuras que os bibliófilos podem cometer na busca de um incunábulo ou de um livro proibido."O Clube Dumas", de Arturo Pérez-Reverte, é uma publicação da Editora Martins Fontes. "
Luciana Fátima

(Luciana Fátima é formada em Comunicação Social, com habilitação em Produção Editorial e pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Já publicou artigos em antologias e escreve ainda para sites como GargantadaSerpente.com e www.leialivro.sp.gov.br)

REINE SOBRE MIM


Um filme contundente, um drama sério e muito bem estruturado que nos faz refletir, aproximando-nos da triste realidade dos sobreviventes do atentado de 11 de setembro.

Adam Sandler, na sua interpretação sóbria e forte, conquista, definitivamente, a minha admiração e respeito. Sem dúvida um ator que, na sua simplicidade vai conquistando as platéias de todo o Mundo.

Preso na angústia e na solidão depois de perder a família no atentado terrorista de 11 de setembro, Charlie Fineman (Adam Sandler) reencontra por acaso seu antigo colega de quarto dos tempos da faculdade, Alan Johnson (Don Cheadle), e passa a resgatar bons momentos de sua vida. Nas ruas de Nova York, o órfão tenta se recuperar da tragédia durante os encontros com o velho amigo e seu passado esquecido.

Elenco:
Adam Sandler
Don Cheadle
Jada Pinkett Smith
Liv Tyler
Saffron Burrows
Cicely Tyson
Robert Klein
Melinda Dillon
Camille LaChe Smith
Mike Binder
Ted Raimi
Direção:
Mike Binder
Produção:
Jack Binder
Michael Rotenberg
Fotografia:
Russ T. Alsobrook
Trilha Sonora:
Rolfe Kent