sábado, 7 de novembro de 2009

O SEQUESTRO DE EDGARDO MORTARA


A obra de David Kertzer é um documento histórico preciso e importante, não só para os amantes da história, mas para o leitor sério que busca o conhecimento necessário para efetuar uma reflexão do seu tempo.

Kertzer nos apresenta um romance envolvente, a narrativa fluente e os fatos devidamente comprovados, com citações de documentos históricos, proporcionam a viagem no tempo da unificação da Itália de meados do século XIX.

Alguns acontecimentos desconhecidos nos fazem repensar afirmações atuais. Descobrimos que há deturpações importantes na história oficial: a estrela de Davi amarela que os judeus eram obrigados a usar nos campos nazistas, já era utilizada pela Igreja muito antes do Séc. XIX e a inquisição não terminou com a Idade Média, o Santo Ofício permaneceu atuante até o início do Século XX.

Entendo que “O Seqüestro de Edgardo Mortara” é obra que deverá integrar qualquer biblioteca comprometida com seu tempo, por ser um documento importante para aqueles que questionam e querem entender o presente.

Para descortinar a origem dos conflitos, das questões sociais e políticas do século XXI é necessário buscar na história da humanidade as respostas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Triologia MILLENNIUM - Stieg Larsson

TRIOLOGIA MILLENNIUM

Um dos maiores êxitos no gênero de mistério dos últimos anos é a triologia Millennium, escrito por Stieg Larsson, jornalista e ativista político muito respeitado na Suécia, que morreu subitamente em 2004. Seus livros não só alcançaram o topo das vendas nos países em que foram lançados (além da própria Suécia – onde uma em cada quatro pessoas leu pelo menos um exemplar da série –, a Alemanha, a Noruega, a Itália, a Dinamarca, a França, a Espanha, a Inglaterra e agora o Brasil), como receberam críticas entusiasmadas.
A obra é a abordagem de duas situações bem definidas: o jornalismo investigativo e o preconceito ainda existente contra a mulher. A mulher escolhida por Larsson é atípica: franzina, com inteligência acima da média, “expert” em informática, completamente tatuada, além de portadora de uma estranheza totalmente incompreensível, porém sedutora. Na Lisbeth Salander o autor conseguiu centralizar um imenso número de mulheres, várias personalidades femininas numa só personagem. A mulher camaleoa, poderosa e frágil (quando apaixonada).
O Jornalismo é quase divinizado na narrativa de Larsson – talvez por sua formação acadêmica – não há, em nenhum dos volumes qualquer crítica à seriedade do jornalismo na Suécia. As soluções para a corrupção, as injustiças sociais e outras patologias humanas, são atribuídas ao jornalismo, com isso lhe é cobrado o comprometimento com o social, com a justiça e o cidadão.
Larsson nos oferece uma leitura lúdica, mas não inócua. Um divertimento instigante numa linguagem fácil que não deixa margem de erro, não há nada a buscar nas entrelinhas. Sua narrativa é direta e objetiva, como num filme policial de qualidade duvidosa. O mérito está na tecedura, na escolha do tema e na sua exploração. Pela primeira vez leio uma obra na qual a mulher é retratada com realidade (apesar do aparente exagero). Todas as mulheres vivem em Salander; de todas as classes sociais, de todas as crenças, de todas as opções sexuais, as mulheres exploradas e as exploradoras.

São três volumes: Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A Rainha do Castelo de Ar. O que mais gostei foi o último, onde o autor se esmera na técnica narrativa e consegue prender nosso interesse em cada página das mais de 600 que o livro possui.
Indico a leitura sem medo de errar, tenho certeza que todos gostarão de viver as aventuras (e desventuras) desses dois personagens apaixonantes.

domingo, 18 de outubro de 2009

ARCA RUSSA - Aleksandr Sokúrov


A simples realização de “Arca Russa” (Russkij Kovcheg, Rússia/Alemanha, 2002) já seria suficiente para inscrever o nome do cineasta Alekxandr Sokurov em uma nova página da história do cinema. A rigor, o longa-metragem nem precisava ser bom para conseguir marcar esse tento. É simples: “Arca Russa” consegue a proeza tecnológica de ter um único plano-seqüência. Ou seja, o filme inteiro numa tomada única. São 97 minutos gravados em um só fôlego, sem cortes. Uma proeza tecnológica fenomenal. Quanto a isso, não há discussão. Mas o projeto leva, sim, a uma série de reflexões acerca da natureza da arte cinematográfica.
Muita gente acredita que “Arca Russa” oferece uma pista inequívoca daquilo que poderá ser o futuro do cinema. Como grandes clássicos do passado (”Cidadão Kane”), o trabalho de Sokurov exigiu que um equipamento especial fosse adaptado para poder realizar o projeto ambicioso. O cineasta e o diretor de fotografia, Tilman Büttner, tiveram que inventar uma maneira de captar as imagens de forma 100% digital. Essa tecnologia já existia, mas não a possibilidade de gravar 97 minutos de filme sem cortes. O filme digital, em tese, teria que ter cortes. Por isso, a câmera utilizada no longa precisou ser ligada a um disco rígido especial, que armazenava os dados digitais à medida em que as cenas iam sendo captadas.

A suntuosidade do projeto também exigiu uma coreografia monumental. Não é admirar que Sokurov tenha sonhado com o projeto durante 15 anos, e que nada menos do que sete meses tenham sido gastos apenas para montar a coreografia do trabalho, que foi gravado em um único dia: 23 de dezembro de 2001. Por sinal, o filme tinha mesmo que sair naquele dia, querendo ou não, pois o Hermitage só permitiu o projeto porque não precisaria fechar a casa por mais tempo.
Um breve resumo do enredo, acrescido de alguns números, podem dar uma idéia do tamanho hercúleo da tarefa. O longa narra um passeio de dois personagens por 35 salas, pátios, corredores e escadas do museu Hermitage, em São Petersburgo (Rússia). Não é uma tour comum; nela, 3 mil figurantes, todos devidamente caracterizados com os figurinos pomposos, característicos da monarquia russa, encenam grandes e pequenos momentos de 300 anos da história do país, entre os séculos XVII e XX. Os espectadores ficam conhecendo personagens históricos como os czares Pedro o Grande, Catarina a Grande, Catarina II e Nicolau.
Do ponto de vista técnico, portanto, o projeto é capaz de fazer uma campanha logística como a responsável pela trilogia “O Senhor dos Anéis” parecer festa de aniversário de criança. Além disso, a fotografia, a cenografia e os figurinos se casam maravilhosamente, gerando um filme rico de conteúdo e com imagens de beleza plástica inconfundível. Sokurov logra sucesso em um dos objetivos declarados de “Arca Russa”: retratar o museu Hermitage como uma espécie de repositório orgânico, quase vivo, da cultura de um povo. O filme atinge admiravelmente esse propósito, inclusive quando realiza a crítica dessa mesma cultura, através do enigmático personagem do Europeu (Sergei Dreiden). Ele não economiza ironia, ao comentar sobre a vontade dos monarcas russos em copiar os franceses.

Quando se deixa de lado a parte técnica do filme, porém, sobram questões que merecem reflexão. Há uma pergunta que parece fundamental: por que “Arca Russa” precisou ser filmado em uma tomada só, sem cortes? Qual a razão para a utilização dessa técnica específica? Será que o trabalho ficaria pior se fosse filmado de modo tradicional? Essa pergunta permanece sem resposta. Projetos que tentaram experiências parecidas (“Festim Diabólico”, de Hitchcock, e o recente “Timecode”, de Mike Figgis) tinham justificativas mais sólidas. A película de Hitchcock necessitava de um encapsulamento rigoroso dos limites de tempo e espaço, para gerar a tensão necessária no espectador. Já o trabalho de Figgis tem uma semelhança muito maior com o longa de Sokurov, pois inclusive foi filmado com tecnologia digital de captação de imagens. Mas “Timecode” recorta um mesmo período do dia e o narra em quatro janelas simultâneas que se abrem na tela do cinema. Portanto, a continuidade das imagens também é fundamental.
Em “Arca Russa”, nenhuma resposta a essa pergunta satisfaz inteiramente. Parece óbvio, entretanto, que Sokurov tenta travar um diálogo com uma geração anterior; particularmente, com Sergei Eisenstein. O mestre formalista foi o homem que elevou o conceito de montagem ao nível de arte. Através de obras como “O Encouraçado Potemkim” (1925), Eisenstein mostrou que o cinema criava significado através da justaposição de planos – ou seja, através do corte. Em outras palavras, que o significado que emanava do choque entre duas tomadas isoladas não estava, sozinho, contido em nenhuma delas. A cena de uma criança chorando não significa nada além disso. Um plano de um prato vazio também não. Juntas, essas duas imagens geram uma imagem mental na platéia: fome. Esse conceito foi, depois, ampliado e refinado pelos gigantes na arte do filme, como Stanley Kubrick. Todo o cinema contemporâneo presta tributo a Eisenstein.
Talvez “Arca Russa” tenha a pretensão de oferecer um caminho alternativo ao criador de “Potemkim”, porque, de fato, o trabalho de Sokurov consegue ultrapassar esse problema. Mesmo sem cortes, o conterrâneo de Eisenstein também consegue construir imagens mentais que não estão estritamente contidas nas cenas que vemos na tela. Os 30 minutos finais do longa são o melhor exemplo disso – e também o melhor momento do filme. Vemos a última ceia da família Romanov (evocando a Santa Ceia). Depois, o último baile dos nobres russos, antes da revolução de 1917. A saída das centenas de nobres do prédio principal, em silêncio, imprime uma sensação de nostalgia e desolação que correspondem, em última análise, à imagem mental que a montagem de Eisenstein sempre se preocupou em evocar. O fato de o Europeu avisar ao colega-câmera que não pretende deixar o lugar apenas reforça essa nostalgia. Trata-se do final de uma era, o último suspiro de um período. A calma antes da tempestade.

Nada disso teria sido alcançado sem a ajuda, repito, de uma coreografia rigorosa e nunca menos do que espetacular. Nos 97 minutos, a câmera percorre um caminho literalmente impossível, subindo escadas em espiral, passando por sobre o fosso da orquestra (que executa uma ópera para Catarina, a Grande), executando giros de 360 graus e realizando um verdadeiro balé no trecho final, durante o baile de gala dos Romanov, quando chega quase a levantar vôo. Essas proezas técnicas imprimem um ritmo um pouco mais ágil à narrativa, que possui (como qualquer outro filme que usa a noção de tempo real) uma progressão naturalmente lenta. A câmera praticamente não pára, mas também não acelera a ação. Consegue, assim, um meio termo interessante entre a narração e a reflexão. Por tudo isso, “Arca Russa” é um grande programa para os amantes de um cinema que procura algo novo, ao invés de apenas repetir fórmulas consagradas.

Arca Russa (Russkij Kovcheg, Rússia/Alemanha, 2002)
Direção: Alekxandr Sokurov
Elenco: Sergey Dreiden, Maria Kuznetsova, Mikhail Piotrovsky, David Giorgobiani
Duração: 97 minutos

FONTE: http://www.cinereporter.com.br/dvd/arca-russa/

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

IDIOCRACY

Idiocracy - (2006)
Idiocracy
por André Silva Navarro

Idiocracy começa terrivelmente mal: insinuando que a espécie humana está ficando cada vez mais estúpida por motivos genéticos - mais especificamente, porque as pessoas inteligentes não estão tendo filhos e as burras estão, como se a inteligência de um pessoa dependesse inteiramente dos pais. E isso é uma gigantesca estupidez, o que é irônico considerando que estupidez é justamente o que o diretor e roteirista Mike Judge condena neste filme. Aliás, de acordo com a introdução do filme, só existem pessoas burras e inteligentes, sem nada no meio. Pior: pessoas burras ou de inteligência normal aparentemente são incapazes de feitos grandiosos, sendo fadadas a levar suas vidas de forma quieta e inútil. E como se isso tudo não fosse suficiente, Judge ainda parece acreditar que o fator determinante do "valor" de um indivíduo é apenas seu QI.

Felizmente, o filme deixa essa postura retardada para trás a partir do momento que o protagonista - o insignificante Joe Bauers (Luke Wilson) - e uma prostituta chamada Rita (Maya Rudolph) são congelados numa experiência militar e, por acidente, só acordam quinhentos anos depois e dão de cara com uma sociedade incrivelmente imbecil, populada por seres humanos facilmente manipulados por comerciais e cujo filme favorito chama-se "Bunda" e consiste de uma bunda sendo filmada peidando por noventa minutos. Incapaz de achar soluções para o lixo e para a alimentação, esta sociedade do futuro acaba sendo surpreendentemente verossímil, já que é possível traçar vários paralelos com os dias de hoje: os comerciais manipulativos, os filmes preguiçosos que fazem sucesso, o crescente uso da tecnologia para aumentar o conforto dos humanos - o que me fez lembrar do fabuloso Wall-E, onde as pessoas do futuro usam poltronas flutuantes para se deslocar. E nesta sociedade medíocre, os medianos Joe e Rita são considerados gênios - algo que os coloca em péssimas situações. Porém, o erro de Judge (e do co-roteirista Etan Cohen) é achar que a humanidade chegaria a esse ponto devido à reprodução de pessoas burras sendo maior que a de pessoas inteligentes (até dói escrever isso). Não, se a humanidade chegar a tal decadência, será por nossa própria culpa - nos deixando manipular pelos confortos de hoje em dia e ficando cada vez com mais preguiça de pensar.

Se ignorarmos esta ridícula postura de Idiocracy, o filme se transforma numa comédia surpreendentemente eficaz e que, mesmo equivocada, se torna socialmente relevante ao tocar em certos aspectos. Repare, por exemplo, como a polícia do futuro cerca um carro supostamente com gente dentro e o metralha impiedosamente (até uma bazuca é usada) - numa referência clara à brutalidade policial de hoje (o que me fez lembrar tristemente do garoto de três anos, João Roberto, morto por dois PMs). Ou como uma bebida chamada Brawndo substitui completamente a água, que passa a ser usada apenas em vasos sanitários.

O filme também acerta ao extrair humor da burrice da sociedade do futuro - com destaque para a brilhante cena em que Joe tenta explicar aos ministros porque água é melhor do que Brawndo para fazer plantas crescerem ("Mas Brawndo tem eletrolitos!"). Apesar de ter uma filosofia distorcida no que diz respeito à espécie humana, Mike Judge definitivamente tem talento para humor, e não pude deixar de rir em diversas cenas - algo que não faço com facilidade. O roteiro dele e de Etan Cohen consegue criar novas maneiras de complicar a vida de seus protagonistas, e jamais transforma Joe ou Rita em "gênios" de repente - eles permanecem consistentes do início ao fim, sendo apenas o cenário em volta deles que muda.

Na direção, Judge também faz um bom trabalho, escolhendo ângulos e movimentos de câmera que realçam a comédia. O filme também é muito beneficiado pelo seu ótimo elenco - começando com Luke Wilson, que compõe o protagonista mais mediano que você possa imaginar. Com bom timing cômico, ele carrega o filme facilmente sem desperdiçar nenhuma gag. Maya Rudolph está razoável, sem brilhar mas sem prejudicar. Dax Shepard está hilário como o retardado Frito e Terry Crews, impecável como o presidente Camacho (seus discursos são impagáveis). Não há um único membro do elenco que não convença como um completo imbecil.

Idiocracy é realmente engraçado, só é pena que seja tão equivocado a respeito do que pode levar a humanidade à ruína - não é QI ou genética, somos nós. Porque se fosse impossível fazer as pessoas mudarem de idéia só porque são burras ou inteligentes ou que quer que seja, nós já teríamos sido extintos há muito tempo.


http://www.cinemaemcena.com.br/Critica_Detalhe.aspx?id_critica=7221&id_tipo_critica=1

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

HOUSE e a Filosofia - Todo Mundo Mente

Para quem acompanha a série premiada da Universal, gosta e conhece um pouco de fisolofia, é uma leitura excelente.

RECOMENDO.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Semana Especial

Estive fora do ar por alguns dias, problemas com a coluna decorrentes da minha negligência na relação com meu corpo. Como todos os fatos de nossas vidas possuem seu lado positivo, o meu foi a possibilidade de dedicar total atenção às minhas leituras.

Iniciei com a obra de Salman Bushdie – Os Versos Satânicos.
Preciso fazer um parênteses para explicar como esse livro veio dar à minha estante.
Em nenhum momento a obra esteve na minha lista de espera para leitura. No entanto, minha mania de vasculhar sebos me levou a adquirir a tão comentada e polêmica obra, que provocou a ira do Jihad Islâmico.
Iniciei a leitura. Vislumbrei a alegoria utilizada pelo autor, acreditei que seria um desses livros inesquecíveis e repletos de ciladas intelectuais. Mas uma barreira intransponível se colocou diante de minha curiosidade, não tenho qualquer conhecimento, por menor que seja, da cultura islâmica, mulçumana. Alguns trechos se tornaram incompreensíveis e fui obrigada a abandonar a leitura nas 110 de suas 511 páginas. Na verdade pretendo retomar essa leitura, após acessar informações que possibilitem meu diálogo com o autor.

De um extremo a outro, escolhi o livro de Luciano Trigo, Vampiro. Gostei muito, mas tenho ressalvas que logo serão esclarecidas após algumas considerações e transcrições de seu conteúdo.
A narrativa é efetuada pelo protagonista, jornalista cujo nome não é revelado, suas paixões; xadrez e jazz entre outras. Numa narrativa aparentemente caótica e gótica, o leitor compartilha com o personagem narrador da insegurança vivenciada em nossos dias, no Rio de Janeiro, zona sul, a solidão e o individualismo.

Durante a leitura compartilhamos da desesperança do personagem:

“[...] Eu tenho uma teoria: o ser humano não foi geneticamente programado para ser feliz. Comer, dormir, trepar, envelhecer, morrer – estes são os autênticos objetivos de nossa espécie. Em algum momento, porém, os homens encafifaram que tinham que ser felizes. A busca da felicidade é um equívoco, e é sobre esse equívoco que se constroem todas as relações sociais.[...]” e assim vai, todas as mulheres são vagabundas, nada é realmente importante, até que, no final do livro o personagem trava uma conversa com o autor. (Muito legal esse artifício criando um contra ponto no diálogo com o leitor). Nesse diálogo a narrativa, que até então apresentava uma essência existencialista, fica “careta”. Toda a magia da existência do vampiro que o narrador acreditava ser, sua relação com o lado negro que todos nós possuímos, seus temores, é anulado, evaporando-se no discurso “lugar comum” do autor:

“[...] Jovens desorientados, angustiados, donos de uma liberdade inútil, da qual não sabem tirar proveito. Já não se submetem aos valores antiquados de seus pais, mas não sabem que rumo tomar, carecem de referenciais, exemplos, metas.[...]” Pena! Não gostei do desfecho, considerei a análise do autor simplista, fico com os pensamentos perturbados do personagem narrador, são mais literários.

Mas não me arrependo do tempo gasto, o livro é incrível, prende a atenção, bem escrito, uma verdadeira obra de arte. Se concordo ou não.... importância não há, sou apenas uma leitora.


Passsei então à leitura de Anjos e Demônios de Dan Brown. Já havia lido dois livros do autor, O Código da Vinci e Fortaleza Digital. Devo confessar que o estilo Best Seeler já está me cansando. Mas também preciso admitir que a leitura de Anjos e Demônios é bem mais interessante que os dois anteriores. O fantástico está presente em todos os momentos, me fez lembrar os primeiros filmes do Agente 007, quando tudo era possível – ou mais recente – o último Duro de Matar. É divertido, mas é só.
Anjos e Demônios é uma obra em que tudo é permitido, o filme deve ser intenso, movimentado como as melhores películas de ação de Hollyhood.

sábado, 18 de julho de 2009

EVOCAÇÃO - Minha Vida ao lado do CHE


"Adeus, minha única,
não tremas ante a fome dos lobos
nem no frio estépico da ausência;
do lado do coração te levo
e juntos seguiremos até que o caminho se
desvaneça..." (CHE)

A obra de Aleida March, esposa de Ernesto Che Guevara, revela o homem apaixonado e pai que foi o maior revolucionário da história da humanidade. Impossível separar o homem do comandante, o ser humano do lider, o marido do sonhador que acreditava que o mundo poderia ser mais justo.

"[...] Assim amo você, com lembranças de café amargo em cada manhã sem nome e com sabor de carne limpa da covinha do seu joelho, um charuto de cinza equilibrista e um resmungo incoerente defendendo o impoluto travesseiro[...]" (CHE)

A narrativa de Aleida, antes de piegas e carregada de intimidade, é um tributo ao homem revolucionário cuja a maior característica sempre foi a coerência. A teoria socialista levada à mais radical ação, Che jamais teve um deslize, por menor que fosse, de suas idéias de justiça social.

Muitos o odeiam, outros o amam, mas ninguém pode negar a sinceridade e honradez com que defendeu seus ideais. Podem sim, questionar suas idéias, seus sonhos, mas jamais sua autenticidade.

Aleida nos mostra esse homem, poeta, filósofo, estudioso, leitor compulsivo, revolucionário, marido e pai. Esta última qualidade apenas vivenciada no coração.


"[sonharei com você e com os meninos que vão crescendo inexoralvemnte. Que imagem estranha eles devem fazer de mim e que dificil será que algum dia me amem como pai e não como o monstro distante e venerado, porque será uma obrigação fazê-lo.
Quando eu partir, deixarei para voce uns livros e notas, guarde-os... Eduque as crianças. Sempre me procupam os homens, sobretudo... ]"


As inúmeras leituras que efetuei sobre essa personagem confirmam, de uma forma ou de outra, que tudo o que se sabe sobre sua conduta e personalidade não é fantasia. Um homem para ser admirado, respeitado, pelos seus amigos, admiradores e inimigos.
Termino com as palavras de Aleida quando, após trinta anos, recupera os restos mortais do marido e lhe dá o enterro digno de um estadista:
"Na fria manhã de 28 de junho de 1997, aparecia em Valle Grande a cova com os restos de sete dos companheiros mortos, entre eles CHE. Se a notícia da sua morte surpreendeu o mundo, o achado da cova que conteve os seus restos por quase trinta anos [...] acentuou enormemente o exemplo da sua vida, em momentos nos quais o mundo passava por uma das suas provações mais nefastas: o desaparecimento do socialismo e a implantação de uma política hegemônica neoliberal e unilateral. Era como se CHE, mais uma vez, tivesse se levantado a fim de nos convocar para uma nova batalha."
Mas, apesar de vencido pelo imperialismo, CHE é um vencedor. Deixou em nossos corações o exemplo de retidão, coerência e amor pela humanidade.

domingo, 14 de junho de 2009

AO ENTARDECER (EVENING)

Quando a metade da vida é ultrapassada e o tempo se torna exíguo as lembranças surgem, ocupando a maior parte dos dias. As noites ficam mais difíceis e, muitas vezes, o sono se perde nas brumas do tempo vivido. As viagens nas asas da memória trazem risos, lágrimas e perplexidade a rostos enrugados e opacos.
Acredita-se que muitos erros foram praticados, os acertos são negligenciados, o sentimento de importância, a certeza de ser especial, único, é abalada pelo olhar crítico e maduro do homem velho.

O sofrimento se instala, as rugas se aprofundam, a esperança se esvai, no reflexo do corpo, carcomido e triste, no espelho do quarto.
Será que esse sentimento é compartilhado por todos aqueles que chegam à senilidade? Será que as lágrimas do velho – muitas vezes atribuídas à demência senil – são reflexos dessa lucidez?

Vai saber!

O filme “Ao entardecer” com a direção de Lajos Koltai, baseado no romance de Susan Minot, com um elenco que conta com nomes como Vanessa Redgrave (magistral) Meryl Streep, Glenn Close entre outros, apresenta o momento final da vida com um lirismo e beleza incríveis. A fotografia é primorosa e a mensagem de uma sutileza que talvez passe despercebida do espectador descuidado.

Na retaguarda da narrativa de “Uma viagem emocional sobre um amor eterno e o profundo laço entre mãe e filha, EVENING reúne gerações de mulheres em um conto vivido em dois momentos, a juventude de duas grandes amigas, e seu reencontro nos dias de hoje, ao lado das filhas já crescidas.” (sinopse do site InterFilmes.com) tem-se uma reflexão madura e realista da vida vista pela presença da morte. Na verdade a morte é poética, apresentada mais como final do espetáculo, como o descer da cortina sob aplausos da platéia. Belíssimo poema à vida, lirismo acentuado na fotografia e no texto. As inferências são valiosas, principalmente para aqueles que já estão vivenciando o aproximar da viagem de volta, o grand finale
.

domingo, 7 de junho de 2009

O PALÁCIO DE ESPELHO

"O Palácio de Espelho" é um romance épico escrito por um mestre na arte de contar histórias, Amitav Ghosh. O livro narra os passos de um menino órfão e pobre, Rajkumar, surpeendido em meio à invasão britânica da Birmânia, em 1885. Às vésperas da expulsão da família real birmanesa pelos soldados, o menino se descobre apaixonado por uma bela pajem da rainha. Ela segue com seus senhores para o exílio, mas ele não a esquece. Anos depois, dono de um próspero empreendimento madeireiro, Rajkumar parte para a Índia em busca da amada.

Com a união de Rajkumar e Dolly, tem início a história de três famílias, que se cruzam e constroem uma forte ligação afetiva. Como pano de fundo temos a história política da Birmânia, o imperialismo britânico, algoz do povo indiano, a segunda guerra mundial, tudo isso visto pelos olhos das famílias envolvidas. As perdas, a luta de consciencia de Arjun, oficial do exército britânico, apesar de indiano, que se vê irremediavelmente perdido das suas origens.

Um livro fascinante, cuja a leitura nos faz pensar e repensar os valores sociais, o preconceito com as culturas e hábitos diferentes dos nosso.

A narrativa atravessa 111 anos, mostrando diversas realidades ao longo do século e termina em 1996, quando a neta de Rajkumar, Jaya, escritora, vai até a Birmânia para se encontrar com o seu tio, Dinu, e retomar o início da história.

Impossível escolher um trecho ou mesmo vinte, para ilustrar o fascínio que essa leitura me provocou, mas uma em especial pode transmitir a dimensão da seriedade e importância da leitura de "O palácio de espelho". O trecho que ora transcrevo se refere à Birmânia que Jaya encontra, dominada pelo medo, subjugada por um golpe militar:

"[...] A cada ano os generais pareciam ficar mais poderosos, enquanto o resto do país se enfraquecia: os militares eram como íncubos, sugando a vida de seu hospedeiro. U Thiha Saw morreu na prisão de Insein, em circunstâncias que não foram explicadas. Seu corpo foi levado para casa com marcas de tortura e a família não teve direito a um enterro público. Um novo regime de censura foi instalado, desenvolvido a partir dos alicerces do sistema deixado pelo velho Governo Imperial. Todo o livro e revista tinha de ser apresentado a um Comitê de Exame de Imprensa para ser lido por um pequeno exército de capitães e majores.[...]"

Escolhi este trecho pela semelhança com nossa experiência nos anos da repressão militar. Escolhi porque representa um ponto de inserção das duas culturas, a nossa e a oriental. Escolhi o trecho como testemunho da insanidade do preconceito, como prova de que não há tantas diferenças que não possam ser trabalhadas e digeridas pela lucidez e pela boa vontade em aceitar valores diferentes dos nossos e até mesmo evoluir com essa compreensão.







Amitav Ghosh nasceu em Calcutá, em 1956, e passou a infância em Bangladesh, no Sri Lanka e no norte da Índia. Estudou em Nova Délhi, em Oxford e no Egito, e lecionou em várias universidades indianas e americanas.

QUEIME DESPOIS DE LER


Um filme divertido mas, ao mesmo tempo, sério. A comédia estrelada por George Clooney, Jonh Malkovich e Frances MacDormand, além da impagavel presença de Brad Pitt, trata com humor do mundo da espionagem e do adultério. A abordagem é simplesmente fantástica. Uma sucessão de erros do nosso tempo: beleza imposta pela mídia, o culto do corpo, o namoro pela internet, fatos com os quais convivemos no dia a dia são temperados pelo suposto mundo da espionagens.


Uma comédia leve e ao mesmo tempo tensa. Destaque para o professor de ginástica criado por Brad Pitt, hilário. A crítica é clara, tanto nos aspectos sociais como nos políticos.


Adorei!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

ARTHUR & GEORGE - JULIAN BARNES

Arthur Conan Doyle é o criador do detetive mais famoso do mundo: SHERLOCK HOLMES.



George Edalji é um desconhecido advogado, que tem sua vida e sua carreira ameaçadas por uma série de acontecimentos estranhos. Arthur está decidido a solucionar esse mistério e ajudar George, que está sendo acusado por crimes que não cometeu. Julian Barnes combina com maestria romance psicológico, história de detetive e thriller literário, recontando uma história real há muito esquecida.


George Edalji


Sir Arthur Conan Doyle

Julian Barnes nasceu em 1946 em Leicester, Inglaterra. Foi vencedor de diversos prêmios literários importantes. Atualmente vive em Londres.


Uma leitura com satisfação garantida. A tradução excelente e a narrativa emocionante garantem a satisfação do leitor desde as primeiras páginas, mantendo a atenção e a viagem para um mundo, ao mesmo tempo, de fantasia e realidade.

Agradeço a dica do meu amigo, companheiro no amor pela Arte e pela Literatura.

domingo, 10 de maio de 2009

A CERTIDÃO DA TERRA

A obra de Hugo de Lara chegou às minhas mãos numa das inúmeras "garimpagens" que efetuo nos sebos da Cidade. Escolhi o livro pelo tema. Poderia ter me enganado e interrompido a leitura imediatamente, mas não foi o que aconteceu. Logo nas primeiras páginas fiquei envolvida, tomada pela narrativa singular desse autor desconhecido. Continuei mergulhada em suas páginas e a surpresa foi se apoderando de mim, o sorriso que nascia em meus lábios em determinadas passagens, o deslumbramento que senti ao encontrar a lucidez social e humana no personagem MATIAS, o meu preferido. O Padre Crisóstomo e suas reflexões a respeito da vida, dos homens e seu papel de pastor de Deus, me emocionaram. As histórias das minas gerais, a mula sem cabeça, a cobra Glorinha, o capeta na garrafa, enfim, presenciei, nas páginas de A Certidão da Terra, a minha infancia em Minas Gerais, minhas idéias políticas, minha desesperança na humanidade e ao mesmo tempo a esperança em que pode haver mudanças. Mergulhada num turbilhão de reflexões de personagens incríveis, bem construidos, fui me diluindo no calor do "sentir" do autor.
O lirismo, presença constante na narrativa, não deixou dúvida, estava diante de um autor maravilhoso, doce e ao mesmo tempo cruel, ingênuo e maldoso, com primor linguístico e ofensas à língua mãe, tudo ao mesmo tempo, numa mistura saborosa bem ao modo brasileiro. Um autor brasileiro sem sombra de dúvidas.
Mas fiquei decepcionada, não encontrei qualquer vestígio do autor ou da obra na internet. Nem mesmo algumas imagens para ilustrar este texto. Fiquei triste com a invisibilidade de um escritor tão competente e sensível, na nossa mídia. Enquanto escritores estrangeiros ocupam os primeiros lugares nas listas de mais vendidos. Não afirmo que sejam livros ruins, há excelentes obras nessas listas, mas reclamo da falta de apoio aos nossos autores, restritos às salas de aula como castigo para alunos analfabetos funcionais que não conseguem ler mais de uma página sem cair no tedio imbecil de nossos tempos. Desculpem o desabafo.
Para compensar o silêncio e a ausência de imagens nesta postagem, vou transcrever alguns textos do livro:
OMISSÃO
"[...] É grave, decidiu. E sentiu dolorosa e fisicamente a dor de pensar no que os homens tinham feito e iam fazendo da vida, e pensava Deus há de acabar com tudo [...] Eu sou um ruminante, balancei dias e dias na minha cadeira na varanda, e não movi uma palha por minha mulher, pelos meus filhos.... só o amor pela minha família já teria valido a pena, já teria salvo um bom pedaço da raça humana, ja teria purificado uma boa quantidade de ar no mundo.[...]" p.50
AMOR
"[...] Maria!, vem aqui, perto de mim, se assente, assim, não dá tempo de chorar, de embaçar os olhos e não te ver, não dá, não, nem para mim nem para você, que se tem vinte e quatro horas de vida, vinte e quatro horas passo te querendo, e uma hora, que me esgote, que me mate, que me sufoque, mas é uma hora, compreende, Maria?, [...]" p.134
SEXO
"[...] Foram para o quarto e se tomaram e se deram até à exaustão, violentos e carinhosos, alegres e tristes, com riso e choro, esperançosos e desesperados, e se lamberam e se morderam, se curaram e se feriram, e depois ela se aninhou em seus braços, disse eu sou mais feliz que as mulheres de vida eterna, que tanta intensidade desse amor, tanto carinho e tanta fúria, tanta angústia e alegria nesse trepar só é possível para mim, mortal e fraca. E dormiram e acordaram no meio da noite e recomeçaram e dormiram e tornaram a recomeçar, e que felizes!, ela dizia, ele concordava, se morressem assim.[...]" p.146
VELHICE
"[...] preciso mesmo de solidão, de pensar. Dá muito trabalho para mim decidir sobre o mínimo gesto que faça. É como se tivesse que pagar por todas as vezes que agi sem pensar. E isso foi toda a minha via [...] Não estou mais tão seguro, e nem tenho certeza das coisas como tinha. [...] depois de pensar muito tempo na melhor solução concluo invariavelmente que cada um tem a sua resposta, e não poderia responder por ninguém nem ninguém por mim.[...]" p.380
Poderíamos continuar, pois são muitos os trechos selecionados por minha admiração, mas precisam estar contextualizados. O texto que postei sobre a velhice, por exemplo, é do padre Crisóstomo, comunista, cavalheiro mascarado que roubava do ricos para dar aos pobres, homem caridoso e comprometido com seus fiéis, tentava mudar o mundo.
A narrativa do sexo é feito por dois jovens, que na lua cheia se tranformavam em lobsomen, a do amor é do Matias com sua esposa Maria, doente com "morte de hora marcada". E vamos passeando por inúmeras crenças, injustiças, medos e perdões, mortes e nascimentos.
O Buriti nasce, prospera pelas mãos de seus cidadãos e começa a morrer pelas mãos de homens inescrupulosos que criam o estado de direito, com prefeito, vereadores e poder de polícia. É então que o Buriti começa a morrer. A maldade transforma todos em cogumelos que explodem com a maldade final, o Gabriel corrompido, pior que o Juquinha Peçanha.
NOSSA!!!!!
Vou contar a história toda, mas não se preocupem, é impossível numa só leitura absorver toda a história, afinal, é A Certidão da Terra, o nascimento, a glória, a decadência, o poder e finalmente a morte de uma cidade? uma nação? morte do mundo? Quem sabe! Você escolhe.
Leiam, e quem souber do paradeiro de Hugo de Lara, por favor, me escreval.
LARA, Hugo. "A Certidão da Terra". Editora José Olympio, Rio de Janeiro. 1986

sábado, 2 de maio de 2009

IN ON IT

IN ON IT é a peça teatral escrita por Daniel MacIvor, que no Brasil, é dirigida por Enrique Diaz e apresentada no Teatro Oi Futuro RJ pelos atores Emílio de Mello e Fernando Eiras. Em cartaz até 28 de junho de 2009.

Pelo pagamento de um só ingresso você se delicia com duas peças, uma embutida na outra, ambas carregadas de emoção e humor.

Estava com sede de teatro, ao mesmo tempo desesperada pela invasão de peças ruins e besterol que assolou o Rio de Janeiro. Foi muito gratificante sentar na primeira fila do teatro Oi Futuro RJ e me alimentar dos talentosos Emílio de Mello e Fernando Eiras.

Mas não posso deixar de apontar para o casamento perfeito desses dois atores, eles se completam no palco, com suas divergências emocionais e presenças diferentes, mas marcantes.

Chorei com Fernando, gargalhei com Emílio, impactei com o texto (magnífico), sofri com minha realidade espelhada pelo espetáculo, despudoradamente nua diante do óbvio, “é a vida!”, que vez ou outra um dos personagens do Fernando dizia, assim, na nossa cara: “é a vida!”.

A ferida exposta, a racionalidade cruel, o amor, o ódio, a alegria e tristeza, mas, acima de tudo a bizarra realidade do “é a vida!”.

A propósito, com a licença do autor, do elenco e de toda a equipe, adorei o “Que meigo!” irônico, vou adotar, aliás... já adotei.

QUE MEIGO!

sábado, 25 de abril de 2009

muito longe de casa

Todos nós já ouvimos falar, assistimos filmes ou documentários sobre a guerra civil em Serra Leoa. Sabemos que seus habitantes falam o português, apesar de misturado aos muitos dialetos tribais. Se não me engano até a Regina Casé já passou por lá, na periferia africana. Soubemos da existência dos meninos-soldados, das barbáries praticadas pelos dois lados, governo e rebeldes. Mas nada se compara ao relato de Ishmael Beah em seu livro Muito Longe de Casa - Memórias de um Menino-soldado.
Relutei, adiei a leitura, tentei ler as primeiras páginas, troquei de livro. Lí todas as obras disponíveis na minha biblioteca até me decidir pelo enfrentamento de uma realidade que, apesar de saber existir, tinha certeza que iria me chocar, doer, assustar. E não estava errada. A trajetória de Ishmael é inacreditável.

O menino de 11 ou 12 anos que recitava William Shakespeare para a família e seus amigos da tribo, gostava de música e sonhava, em meio às peripécias de ainda criança, se vê diante da morte de seus familiares e amigos, numa guerra cruel e sanguinária. Torna-se soldado do governo, que o inicia no mundo das drogas. É resgatado pelo UNICEF e reabilitado. No entanto, do grupo levado para tratamento ele foi o único sobrevivente, mas levou consigo todas as terríveis lembranças, os pesadelos, a enxaqueca que atormentava seu frágil corpo.
“ (...) Lembranças das quais às vezes eu gostaria de me livrar, apesar de saber que são uma parte importante do que é minha vida, de quem sou agora (...) Hoje vivo em três mundos: meus sonhos, e as experiências de minha nova vida, que desencadeiam memórias do passado”. P.22
Lendo o livro de Ishmael pude entender um pouco da realidade de nossos meninos-soldados vivendo a guerra civil carioca, obedecendo as ordens dos senhores do tráfico e sendo abastecidos, por estes, de todo o tipo de droga. Pude compreender que a crueldade não tem fronteiras, ela está aqui, bem perto de nós, brasileiros que fecham os olhos para os seus vizinhos, ignoram o problema e buscam respostas fáceis e apaziguadoras de suas consciências.
Relutei em ler, fiquei com medo, sabia que me atingiria, só não espera que me fizesse refletir sobre minha posição diante de um problema similiar e tão próximo. Pior, a reflexão mostrou como estou passiva. Discurso nunca resolveu nada!

Todos deviam conhecer esse relato franco, sem exibicionismo, de grande valor literário. O autor narra com beleza artística sua própria tragédia.

Estou empurrando um carrinho de mão enferrujado numa cidade em que o ar cheira a sangue e carne queimada. A brisa traz o pranto débil de corpos mutilados que dão o ultimo suspiro (...) As moscas estão tão excitadas e intoxicadas que caem nas poças de sangue e morrem. (...) Consigo sentir o calor do meu rifle AK-47 nas minhas costas; não lembro quando atirei com ele da última vez (...)”. P. 21

Por todos os motivos, valor literário, realismo, depoimento fidedigno, semelhanças com nossa realidade urbana ou pelo valor estimulante da luta interior como melhor caminho, a determinação e a coragem de recomeçar, a leitura de "Muito longe de Casa" é importante e não deve ser negligenciada.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A GUERRA DO FIM DO MUNDO

Em 1977, Mario Vargas Llosa começou a escrever um romance que seguia um caminho diferente - em vez de usar suas memórias para compor uma história de forte veia cômica, ele decidiu recontar a dramática Guerra de Canudos, impressionado pela leitura, alguns anos antes, de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Em 1980, após exaustivas pesquisas em arquivos históricos e viagens pelo sertão da Bahia, ele terminava A guerra do fim do mundo. Nele, o escritor peruano constrói uma saga que engloba tudo; honra e vingança, poder e paixão, fé e loucura. O autor dá uma nova dimensão à história de Antônio Conselheiro, em que personagens de carne e osso, alguns reais, outros imaginados, empreendem uma saga sem paralelos na história do país.

MARIO VARGAS LLOSA
Mario Vargas Llosa (nascido Jorge Mario Vargas Llosa) ( Arequipa, Peru, 28 de março de 1936), é um dos maiores escritores de língua espanhola, reconhecido, em nível mundial, como romancista, jornalista, ensaista e político.

Quem sou eu

Minha foto
FENIX
Em busca da PAZ e do AMOR UNIVERSAL.
Visualizar meu perfil completo